
Produzir etanol de milho no Brasil é uma escolha burra, imoral e economicamente suicida. Enquanto o mundo enfrenta a maior crise alimentar dos últimos 50 anos, com mais de 800 milhões de pessoas passando fome, segundo a FAO, empresários e usineiros brasileiros decidiram queimar comida no tanque de combustível.
É um tiro no pé em três frentes.
Primeiro, é um crime contra a segurança alimentar. Uma tonelada de milho alimenta dezenas de famílias ou engorda o rebanho que vai alimentar a população. Transformar essa mesma tonelada em 400 litros de álcool para carro andar em São Paulo é inverter toda a lógica de um país que se vende como celeiro do mundo. Estamos pegando o prato do povo e jogando dentro do motor.
Segundo, é uma conta que não fecha e nunca fechou sem subsídio disfarçado. O milho precisa ser comprado a preço de mercado, cozido com gás comprado, com enzima importada e secado com lenha comprada. Diferentemente da cana, que gera sua própria energia com o bagaço, o milho consome energia fóssil para produzir uma energia que se diz renovável. É uma farsa verde. O produtor só lucra porque empurra o DDG, um farelo de segunda linha, para o pecuarista a preço de ouro.
Terceiro, é entregar nossa soberania. O Brasil é o maior produtor de cana do mundo, com tecnologia dominada, balanço de carbono negativo e 50 anos de aprendizado com o Proálcool. Abandonar a cana, que é nossa, para copiar o modelo americano do corn ethanol, que só existe nos EUA à base de subsídio trilionário do governo de Washington, é confessar complexo de vira-lata.
No momento em que o milho está a mais de R$ 70 a saca e o preço da carne, do ovo e do frango explode na mesa do trabalhador por falta de grão, desviar milho para alambique é especulação pura. É trocar alimento por combustível, e quem paga a conta é o mais pobre no supermercado.
Fazer álcool de cana é produzir energia. Fazer álcool de milho em plena crise global de alimentos é queimar comida. E quem queima comida, uma hora, passa fome.