
Há cinco anos, a cidade de Floridia, na costa sudeste da Sicília, registrou a temperatura mais alta já medida na Europa.
Hoje, moradores dizem que o calor extremo já não é definido por recordes, mas pelos impactos na vida cotidiana.
As ruas estão vazias. A Piazza del Popolo, por muito tempo o principal ponto de encontro da cidade, cercada por cafés e palmeiras, permanece quase deserta durante boa parte do dia.
O morador Ugo Tomasello lembra de um dia tão quente que teve dificuldade para respirar.
Havia tão poucas pessoas na rua que ele pensou que poderia morrer ali sem que ninguém viesse socorrê-lo.
O calor persiste até a noite, afetando uma tradição local conhecida como "pigghiari u frescu".
Nela, famílias costumavam levar cadeiras para a frente de suas casas para aproveitar a brisa e conversar com os vizinhos.
Hoje, ondas de calor cada vez mais frequentes e prolongadas estão levando as pessoas a permanecer dentro de casa.
Alguns moradores comparam o impacto social do calor extremo a uma nova forma de confinamento.
"Muitas pessoas são desencorajadas a sair de casa, inclusive à noite, porque não há alívio para o calor. Isso também está afetando a vida social. Estamos observando uma redução das interações sociais que faz este período se parecer, em certa medida, com o isolamento da época da Covid-19."
Luigi Pasotti é diretor do Serviço Agrometeorológico da Sicília.
Em 11 de agosto de 2021, o órgão registrou 48,8°C, a temperatura mais alta já medida na Europa continental.
O recorde transformou a cidade siciliana de 20 mil habitantes em um símbolo do aquecimento climático no continente.
Não apenas um símbolo, mas um alerta.
Segundo cientistas, eventos extremos isolados são menos importantes do que a elevação constante das temperaturas médias.
"Aqui já não estamos falando de picos extremos de temperatura que duram um ou dois dias, como aconteceu em 2021. Estamos falando de semanas inteiras ou até meses com temperaturas persistentemente elevadas. E essas temperaturas permanecem altas não apenas durante o dia, mas também à noite, quando deveria haver algum alívio e quando as pessoas costumavam sair para as praças da Sicília e se reunir."
Em toda a Europa, as mudanças climáticas têm sido associadas a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e intensos, incluindo secas e incêndios florestais.
E também chuvas torrenciais.
A Sicília se tornou uma das regiões europeias mais expostas aos impactos das mudanças climáticas.