
O aumento do uso de drones no Brasil trouxe uma nova preocupação para a aviação: a presença desses equipamentos nas proximidades de aeroportos. Mesmo pequenos, eles podem representar risco para aviões e helicópteros, principalmente durante pousos e decolagens, fases consideradas críticas de uma operação aérea.
A preocupação cresce junto com o número de equipamentos em operação no país. Dados do governo federal mostram que o Sistema de Solicitação de Acesso ao Espaço Aéreo Brasileiro por Aeronaves Não Tripuladas, o SARPAS, recebeu cerca de *490 mil solicitações de voo em 2025. O volume de pedidos vinha crescendo a uma média de **32% ao ano*.
O SARPAS é administrado pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e é utilizado para analisar e autorizar o acesso de drones ao espaço aéreo brasileiro.
O problema ocorre quando o equipamento é colocado no ar sem observar as restrições previstas para regiões próximas a aeroportos.
Um drone pode entrar na trajetória de uma aeronave comercial, atingir partes sensíveis do avião ou obrigar pilotos e controladores de tráfego aéreo a alterar uma operação. A simples identificação de um objeto não autorizado nas proximidades de uma pista pode levar à adoção de medidas preventivas.
Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o emprego irregular de drones perto de aeroportos e heliportos pode resultar em incidentes ou acidentes com elevado grau de severidade.
Aeroportos brasileiros já tiveram operações afetadas
O risco não é apenas teórico.
Em *2017*, a presença de um drone sobre a pista do Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo, provocou atrasos e cancelamentos.
Em *2023, o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, teve as operações suspensas durante cerca de **30 minutos* depois da identificação de *4 drones simultaneamente* nas proximidades do terminal.
Os episódios são citados pela própria Anac em um manual sobre identificação e captura de drones em ambientes aeroportuários.
Um dos casos de maior repercussão mundial aconteceu em *2018, no Aeroporto de Gatwick, no Reino Unido. A presença de drones levou ao fechamento do aeroporto por mais de 1 dia. Segundo a Anac, cerca de **140 mil passageiros* foram afetados e aproximadamente *1 mil voos* acabaram cancelados.
Há regras específicas para voar perto de aeroportos
No Brasil, quem pretende operar um drone próximo a um aeródromo precisa observar regras específicas de acesso ao espaço aéreo.
Desde *1º de julho de 2026*, está em vigor uma nova edição da ICA 100-40, norma do DECEA que estabelece procedimentos e responsabilidades para o acesso de aeronaves não tripuladas ao espaço aéreo brasileiro.
Nas regiões consideradas mais sensíveis para pousos e decolagens, a restrição pode alcançar uma distância de *9 km* do aeródromo. Em outras áreas do entorno, há situações em que a referência é de *2 km*.
Para voar nessas condições, pode ser necessária autorização do operador do aeroporto, do órgão regional responsável pelo controle do espaço aéreo e do órgão de tráfego aéreo local. O pedido deve ser feito pelo SARPAS.
A chamada Zona de Aproximação ou de Decolagem, conhecida pela sigla ZAD, corresponde justamente ao setor relacionado às trajetórias utilizadas por aeronaves durante essas operações. É uma região especialmente sensível porque aviões estão próximos do solo e possuem menor margem para mudanças bruscas de trajetória.
Regras mudaram em 2026
A regulamentação brasileira de drones também passou por uma atualização neste ano.
Em junho, a Anac apresentou o *RBAC nº 100, que substituiu o antigo RBAC-E nº 94. Uma das principais mudanças foi deixar de classificar as operações apenas pelo peso da aeronave e passar a considerar principalmente o **risco operacional*.
As operações passaram a ser organizadas nas categorias Aberta, Específica e Certificada. A agência também criou um teste on-line de conhecimentos para pilotos de aeronaves não tripuladas.
Ao mesmo tempo, o DECEA atualizou as normas relacionadas ao uso do espaço aéreo. A ICA 100-40/2026 reuniu regras que anteriormente estavam distribuídas em diferentes documentos.
Tecnologia também pode ajudar os aeroportos
Apesar dos riscos provocados pelo uso irregular, os próprios drones começam a ser utilizados de maneira controlada dentro de aeroportos.
A Anac aponta aplicações como inspeção de pistas, pistas de táxi e pátios, identificação de fissuras ou objetos no pavimento, monitoramento do perímetro do aeroporto, inspeção de luzes e sinalizações e auxílio em situações de emergência.
Nesses casos, porém, os voos são planejados e coordenados com os responsáveis pelas operações aeroportuárias e pelo controle do tráfego aéreo.
A tecnologia, portanto, pode ser uma aliada da aviação quando empregada de forma coordenada. O desafio está justamente em impedir que drones não autorizados entrem em áreas utilizadas por aeronaves tripuladas.
O que fazer antes de colocar um drone no ar?
O operador deve verificar se a região possui restrições antes de iniciar o voo.
O DECEA mantém um portal específico para drones e disponibiliza o *SARPAS*, sistema usado para solicitar acesso ao espaço aéreo. As normas atualmente em vigor também podem ser consultadas na plataforma.
A recomendação é especialmente importante nas proximidades de aeroportos, heliportos e áreas com intensa movimentação de aeronaves.
Em uma região aeroportuária, colocar um drone no ar sem verificar as restrições não representa risco apenas para o equipamento. Pode afetar uma operação inteira e colocar passageiros, tripulações e pessoas em solo em situação de perigo.