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Depressão: quando a tristeza não é apenas “coisa da idade”

Apatia, dores persistentes, alterações no sono e até problemas de memória na terceira idade podem esconder um quadro depressivo

mc
Por: mc Fonte: Agência Dino
20/09/2026 às 19h59
Depressão: quando a tristeza não é apenas “coisa da idade”
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A ideia de que um idoso está triste porque envelheceu pode esconder um problema de saúde. Na terceira idade, a depressão nem sempre se manifesta pela tristeza. Apatia, isolamento, dores persistentes, alterações no sono, apetite e memória também podem indicar o quadro, ainda subdiagnosticado.

No Brasil, cerca de 36 milhões de pessoas têm 60 anos ou mais, segundo o Ministério da Saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 15% das pessoas com 70 anos ou mais vivem com algum transtorno mental. Depressão e ansiedade são comuns nessa faixa etária, mas frequentemente permanecem sem diagnóstico e tratamento.

"Envelhecer envolve mudanças e adaptações a perdas, mas a depressão modifica a maneira como a pessoa vive", afirma Luis Alberto Saporetti, geriatra do Hospital Sírio-Libanês.

Segundo o especialista, tristeza e depressão não são sinônimos. "Tristeza é uma emoção. Quando os sentimentos permanecem por muito tempo, é preciso prestar atenção. Na depressão, há perda de prazer, desânimo, sensação de culpa ou inutilidade e prejuízo na vida cotidiana."

Dificultando o reconhecimento da depressão na velhice, irritabilidade, falta de energia, apatia, insônia, perda de apetite, emagrecimento, dificuldade de concentração e queixas físicas podem ser sinais mais evidentes do que tristeza ou choro.

"A apatia merece atenção especial. É aquela perda de iniciativa em que a pessoa vai deixando de fazer coisas que antes faziam parte da vida. Pode parar de cozinhar, cuidar do jardim, encontrar amigos, passear, cuidar da aparência ou participar da família", afirma Saporetti.

Sintomas físicos também podem ser atribuídos automaticamente à idade ou a doenças existentes. Uma dor persistente pode ter causa orgânica, mas também ser agravada pela depressão e vice-versa.

"A relação entre dor crônica e depressão é de mão dupla. A dor pode limitar a mobilidade, prejudicar o sono, reduzir atividades prazerosas e favorecer o isolamento. Ao mesmo tempo, a depressão pode aumentar o sofrimento associado à dor e dificultar a adesão ao tratamento", explica o médico.

Perda de memória é outro sinal que confunde familiares. Como a depressão compromete a atenção e a tomada de decisões, o idoso pode parecer mais lento cognitivamente e reclamar de esquecimentos. Depressão e doenças neurodegenerativas, como demências, podem coexistir e precisam ser diferenciadas por avaliação profissional.

"Quando existe uma mudança significativa da memória, principalmente se é progressiva ou prejudica atividades como administrar dinheiro, medicamentos, compromissos ou tarefas domésticas, é necessária uma investigação", diz Saporetti. Para o médico, a idade isoladamente não causa depressão, mas sim as condições nas quais a pessoa envelhece.

Convivência também é cuidado

Manter vínculos sociais funciona como fator de proteção. Atividades comunitárias, grupos de convivência, cursos, encontros com amigos, familiares, comunidades religiosas e voluntariado contribuem para o bem-estar. Mas, quando a depressão está instalada, o idoso pode não ter disposição para a vida social.

"Estimular não significa obrigar. O idoso precisa, primeiro, ser ouvido. A insistência, ainda que bem-intencionada, pode aumentar a culpa e o sofrimento", explica Saporetti.

A atividade física também ajuda na prevenção e no tratamento. A OMS recomenda para adultos mais velhos pelo menos 150 minutos de atividade moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa por semana, além de exercícios de fortalecimento muscular, equilíbrio e força.

Para os familiares, mudanças persistentes de comportamento devem servir de alerta. Deixar de fazer atividades que gostava, evitar pessoas, perder apetite, dormir mal, reclamar de dores ou perder a iniciativa exigem atenção.

"É importante escutar antes de aconselhar. O familiar pode oferecer ajuda concreta, como marcar uma consulta, acompanhar o idoso ou ajudá-lo a explicar ao profissional o que está acontecendo", pondera o especialista.

O diagnóstico é clínico e considera o histórico da pessoa, estado mental, condições físicas, medicamentos e contexto psicossocial. O tratamento pode envolver psicoterapia, medicamentos ou a combinação das duas abordagens.

"Envelhecer não significa perder a vontade de viver, nem viver triste e isolado. Quando o sofrimento se prolonga, apaga o interesse pela vida e reduz a autonomia, não devemos simplesmente dizer que é da idade", diz Saporetti.

Autonomia também é parte do envelhecimento saudável

A promoção do envelhecimento saudável passa por preservar a autonomia e a capacidade funcional, que reúnem as habilidades físicas e mentais para realizar atividades do dia a dia. Essa é uma das propostas do Mova-se, projeto do Sírio-Libanês criado em sintonia com as diretrizes da Década do Envelhecimento Saudável da ONU.

O programa oferece atividades físicas para pessoas com 60 anos ou mais e busca contribuir para que mantenham a independência. As atividades são definidas a partir das necessidades individuais, identificadas em avaliações periódicas que consideram aspectos físicos, cognitivos, psicológicos, nutricionais e sensoriais.

"O envelhecimento saudável também envolve preservar a autonomia e a capacidade de realizar as atividades do dia a dia. Por isso, quando mudanças começam a comprometer a rotina, a independência ou o interesse pela vida, é importante olhar para além da idade, escutar o idoso e buscar ajuda", finaliza Saporetti.

Confira quatro dicas para identificar sinais da depressão na terceira idade:

Não atribua mudanças à idade
Apatia, isolamento, perda de interesse, dores persistentes, alterações no sono e no apetite ou problemas de memória não devem ser tratados simplesmente como consequências do envelhecimento.

Escute antes de aconselhar
Converse com o idoso sem julgamentos ou cobranças. Em vez de dizer que ele precisa "reagir" ou "pensar positivo", pergunte como ele está se sentindo e mostre disponibilidade para ajudar.

Procure avaliação profissional
Mudanças no comportamento, humor, sono, apetite ou memória devem ser investigadas. Depressão pode coexistir com outras doenças e precisa de diagnóstico adequado.

Mantenha vínculos e uma rotina ativa, sem pressionar
Convivência social e atividade física podem contribuir para a saúde mental, mas o estímulo deve respeitar

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