Arte Nacional
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“Um gol que ele nem viu”
23/09/2026 18h06 Atualizada há 51 minutos
Por: Ronaldo Didini Fonte: RONALDO DIDINI
Ronaldo Didini

Entre o tigrinho no celular e a bet na camisa do time, um casal aprende a conviver com um vício que quase ninguém leva a sério.

José acorda às cinco e meia. Ana dorme. José sempre acorda antes de Ana, não por virtude, mas por hábito. Há vinte e dois anos acorda antes de todo mundo. O hábito ficou. O emprego, não.

Toma café com pão. Olha o celular. O saldo é R$ 43,27. José não se desespera. José tem um plano.

Ana acorda às seis. Encontra José sentado à mesa, o celular na mão, os olhos fixos. "Tá apostando de novo, José?" Não é bem uma pergunta. Ana já sabe a resposta. José não responde. Ana suspira, pega a bolsa, vai trabalhar.

José fica. O tigrinho gira. Gira. Gira. E enquanto gira, José não está ali, naquela cozinha de azulejo amarelo. Está num lugar onde tudo pode ser diferente. É um lugar bonito, esse lugar.

No almoço, Ana senta com a Márcia, que não deixa sobrar silêncio na mesa. Márcia conta que o marido também entrou nessa de tigrinho, mas que ela resolveu: cortou o cartão, bloqueou o aplicativo, disse "ou eu, ou o celular". Ana ri. Ri porque é engraçado e porque é verdade.

"E funcionou?"

Márcia dá de ombros. "Três semanas. Depois ele começou a apostar no celular do amigo. Aí eu desisti. Deixa ele. Pelo menos não é mulher, nem bebida, nem droga."

Ana fica quieta. A frase gira na cabeça dela o resto da tarde. Gira, gira, e não para em lugar nenhum.

À noite, Ana chega em casa. José está na mesma cadeira, o celular virado para baixo. Estava apostando e parou quando ouviu a chave na porta. Ana finge que não vê. José finge que não estava. É uma coreografia antiga, e os dois sabem os passos.

Jantam em silêncio, a TV ligada no jogo. O locutor fala do patrocínio máster, da bet que estampa a camisa do time. O time é o de José. Ele cresceu torcendo por aquela camisa. Levou o pai ao estádio uma vez, num domingo de sol, e nunca esqueceu.

A bet da camisa é a mesma do celular. José talvez nunca tenha pensado nisso. Naquela noite, também não pensa. Olha para o jogo.

"Dizem que vão proibir", diz, os olhos na tela.

Ana não responde.

"Se proibirem, eu paro."

E Ana, com a voz mais mansa do mundo: "Você já parou, José? Alguma vez?"

José não responde. Ana lava a louça. A TV fala em milhões. José olha para a própria mão aberta sobre a mesa, como quem espera que alguma coisa caia nela. Na tela, a torcida explode. José não levanta os olhos.

Chamam isso de entretenimento. Na cozinha de azulejo amarelo, ninguém está se divertindo.

 Os quarenta e três reais e vinte e sete centavos saíram de manhã. A essa hora já estão longe, estampados numa camisa, comemorando um gol que ele nem viu.