Entre o tigrinho no celular e a bet na camisa do time, um casal aprende a conviver com um vício que quase ninguém leva a sério.
José acorda às cinco e meia. Ana dorme. José sempre acorda antes de Ana, não por virtude, mas por hábito. Há vinte e dois anos acorda antes de todo mundo. O hábito ficou. O emprego, não.
Toma café com pão. Olha o celular. O saldo é R$ 43,27. José não se desespera. José tem um plano.
Ana acorda às seis. Encontra José sentado à mesa, o celular na mão, os olhos fixos. "Tá apostando de novo, José?" Não é bem uma pergunta. Ana já sabe a resposta. José não responde. Ana suspira, pega a bolsa, vai trabalhar.
José fica. O tigrinho gira. Gira. Gira. E enquanto gira, José não está ali, naquela cozinha de azulejo amarelo. Está num lugar onde tudo pode ser diferente. É um lugar bonito, esse lugar.
No almoço, Ana senta com a Márcia, que não deixa sobrar silêncio na mesa. Márcia conta que o marido também entrou nessa de tigrinho, mas que ela resolveu: cortou o cartão, bloqueou o aplicativo, disse "ou eu, ou o celular". Ana ri. Ri porque é engraçado e porque é verdade.
"E funcionou?"
Márcia dá de ombros. "Três semanas. Depois ele começou a apostar no celular do amigo. Aí eu desisti. Deixa ele. Pelo menos não é mulher, nem bebida, nem droga."
Ana fica quieta. A frase gira na cabeça dela o resto da tarde. Gira, gira, e não para em lugar nenhum.
À noite, Ana chega em casa. José está na mesma cadeira, o celular virado para baixo. Estava apostando e parou quando ouviu a chave na porta. Ana finge que não vê. José finge que não estava. É uma coreografia antiga, e os dois sabem os passos.
Jantam em silêncio, a TV ligada no jogo. O locutor fala do patrocínio máster, da bet que estampa a camisa do time. O time é o de José. Ele cresceu torcendo por aquela camisa. Levou o pai ao estádio uma vez, num domingo de sol, e nunca esqueceu.
A bet da camisa é a mesma do celular. José talvez nunca tenha pensado nisso. Naquela noite, também não pensa. Olha para o jogo.
"Dizem que vão proibir", diz, os olhos na tela.
Ana não responde.
"Se proibirem, eu paro."
E Ana, com a voz mais mansa do mundo: "Você já parou, José? Alguma vez?"
José não responde. Ana lava a louça. A TV fala em milhões. José olha para a própria mão aberta sobre a mesa, como quem espera que alguma coisa caia nela. Na tela, a torcida explode. José não levanta os olhos.
Chamam isso de entretenimento. Na cozinha de azulejo amarelo, ninguém está se divertindo.
Os quarenta e três reais e vinte e sete centavos saíram de manhã. A essa hora já estão longe, estampados numa camisa, comemorando um gol que ele nem viu.