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O Banco da Bicharada

Uma fábula sobre poder, dinheiro e quem paga a conta quando ninguém fiscaliza.

Por: Ronaldo Didini Fonte: RONALDO DIDINI
23/09/2026 às 18h32
O Banco da Bicharada
Ronaldo Didini

A selva amazônica estava em polvorosa. Os bichos gritavam em coro: "Queremos um banco só nosso!" Os macacos pulavam nos galhos, as gralhas grasnavam sem parar, o papagaio repetia tudo o que ouvia. O jacaré só observava da beira do rio, esperando alguém escorregar. O tamanduá enfiou a cabeça no formigueiro para não ser visto na manifestação. Conhecia as formigas e sabia que, quando a esmola é demais, o santo desconfia. E os ratos… ahhh, os ratos… esses aplaudiam. Já sentiam o cheiro do queijo que não era deles.

Chegou a onça e rugiu: "Ordem! Ordem!" Ninguém deu bola. Já não era a onça de antigamente. Tinha muito título e pouco dente. Tinha grife, mas não tinha garra.

Como ordem não havia, quem tomou a palavra foi o rato. Chamou os macacos, as gralhas e o papagaio para uma reunião, e dali saiu o Banco Magnificent, com um M dourado na fachada. Os ratos cuidariam do cofre. Os outros ganhariam uma boa comissão para espalhar a novidade. A farinha era pouca, mas o biscoito dos ratos era fino.

Faltava o carimbo. Quem deu? As corujas, claro. Aquelas que dormem de dia e juram que viram tudo à noite. Carimbaram, bateram as asas e voltaram para o galho.

Aí começou a festa. As gralhas grasnavam de árvore em árvore: "O Banco M paga juros que ninguém paga! É lucro certo!" O papagaio repetia. Os macacos faziam propaganda de cabeça para baixo. E a bicharada foi depositando. Até o tatu, que tomava conta do cofre comunitário da floresta, cavou um túnel até o M e despejou lá dentro o que era de todos. Os ratos engordaram depressa, e olha que não eram ratos quaisquer. Eram ratos de terno, de pasta e de gabinete. Desses que nunca aparecem na foto da manifestação, mas dão a canetada que entrega o formigueiro para o trator.

Um dia, o cofre fez eco. A primeira a gritar foi uma gralha: "Cadê o dinheiro?" Os macacos pulavam de galho em galho sem dizer coisa com coisa. O carcará, que rondava lá de cima esperando sobra, sumiu no céu gritando o próprio nome. E o papagaio, que só sabia repetir, dessa vez resolveu contar. Abriu o bico. A floresta inteira descobriu que o M era de mutreta.

Ruim mesmo foi para os bichos pequenos. Os que não foram à reunião, nunca entenderam direito o que era aquele M, mas ouviram no boca a boca que era seguro. O besouro perdeu o que juntou em seis anos de chuva. A formiga, que nunca pediu nada a ninguém, viu virar farelo o caroço que guardava para a velhice.

E a onça? Seguiu seu caminho entre medalhas e condecorações. Sempre achou elegante um crime com a papelada em dia. O Brasil é um cartório em cima de um formigueiro.

O jacaré mergulhou de papo cheio. O tamanduá voltou para o formigueiro. E a bicharada pobre, que nunca viu juro cair na conta, batia no peito e perguntava: "Mas quem autorizou?"

Autorizou todo mundo. Fiscalizou ninguém.

A conta chegou. Prenderam o rato mais gordo. Prenderam também o tatu que cavou o túnel entre o cofre da floresta e o banco dos ratos. Ainda bem. Mas ratoeira que só pega quem está na frente não limpa a floresta.

Os ratos de gabinete continuam no gabinete. As corujas continuam no galho. E algumas delas, que já tinham recebido o rato para uma conversa, agora são chamadas a decidir o destino dele. Na floresta, isso tem nome: a raposa tomando conta do galinheiro. No Brasil, tem carimbo.

 

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RONALDO DIDINI
RONALDO DIDINI
Jornalista e radialista, com mais de 35 anos de profissão. É um dos idealizadores e apresentador do programa Fecha Aspas, exibido pela Rede Brasil de Televisão. Nos anos 1990, apresentou o 25ª Hora, na Rede Record, e o Brasil Verdade, na Band.

Além do jornalismo, exerceu sua vocação ministerial como missionário no Brasil e em países como Portugal, Inglaterra, Holanda, Estados Unidos, África do Sul e Zimbabwe. É também autor de vários livros, entre eles O Duplo Remédio de Deus (Graça Editorial) e O Espírito Que o Mundo Não Conhece (Editora Bompastor).

Nesta coluna, Ronaldo Didini leva para o texto os temas debatidos no Fecha Aspas e outros assuntos da atualidade. Em formato de crônica, apresenta fatos, provoca reflexões e amplia a conversa para além da televisão, sem abrir mão da informação e da credibilidade jornalística.
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