A selva amazônica estava em polvorosa. Os bichos gritavam em coro: "Queremos um banco só nosso!" Os macacos pulavam nos galhos, as gralhas grasnavam sem parar, o papagaio repetia tudo o que ouvia. O jacaré só observava da beira do rio, esperando alguém escorregar. O tamanduá enfiou a cabeça no formigueiro para não ser visto na manifestação. Conhecia as formigas e sabia que, quando a esmola é demais, o santo desconfia. E os ratos… ahhh, os ratos… esses aplaudiam. Já sentiam o cheiro do queijo que não era deles.
Chegou a onça e rugiu: "Ordem! Ordem!" Ninguém deu bola. Já não era a onça de antigamente. Tinha muito título e pouco dente. Tinha grife, mas não tinha garra.
Como ordem não havia, quem tomou a palavra foi o rato. Chamou os macacos, as gralhas e o papagaio para uma reunião, e dali saiu o Banco Magnificent, com um M dourado na fachada. Os ratos cuidariam do cofre. Os outros ganhariam uma boa comissão para espalhar a novidade. A farinha era pouca, mas o biscoito dos ratos era fino.
Faltava o carimbo. Quem deu? As corujas, claro. Aquelas que dormem de dia e juram que viram tudo à noite. Carimbaram, bateram as asas e voltaram para o galho.
Aí começou a festa. As gralhas grasnavam de árvore em árvore: "O Banco M paga juros que ninguém paga! É lucro certo!" O papagaio repetia. Os macacos faziam propaganda de cabeça para baixo. E a bicharada foi depositando. Até o tatu, que tomava conta do cofre comunitário da floresta, cavou um túnel até o M e despejou lá dentro o que era de todos. Os ratos engordaram depressa, e olha que não eram ratos quaisquer. Eram ratos de terno, de pasta e de gabinete. Desses que nunca aparecem na foto da manifestação, mas dão a canetada que entrega o formigueiro para o trator.
Um dia, o cofre fez eco. A primeira a gritar foi uma gralha: "Cadê o dinheiro?" Os macacos pulavam de galho em galho sem dizer coisa com coisa. O carcará, que rondava lá de cima esperando sobra, sumiu no céu gritando o próprio nome. E o papagaio, que só sabia repetir, dessa vez resolveu contar. Abriu o bico. A floresta inteira descobriu que o M era de mutreta.
Ruim mesmo foi para os bichos pequenos. Os que não foram à reunião, nunca entenderam direito o que era aquele M, mas ouviram no boca a boca que era seguro. O besouro perdeu o que juntou em seis anos de chuva. A formiga, que nunca pediu nada a ninguém, viu virar farelo o caroço que guardava para a velhice.
E a onça? Seguiu seu caminho entre medalhas e condecorações. Sempre achou elegante um crime com a papelada em dia. O Brasil é um cartório em cima de um formigueiro.
O jacaré mergulhou de papo cheio. O tamanduá voltou para o formigueiro. E a bicharada pobre, que nunca viu juro cair na conta, batia no peito e perguntava: "Mas quem autorizou?"
Autorizou todo mundo. Fiscalizou ninguém.
A conta chegou. Prenderam o rato mais gordo. Prenderam também o tatu que cavou o túnel entre o cofre da floresta e o banco dos ratos. Ainda bem. Mas ratoeira que só pega quem está na frente não limpa a floresta.
Os ratos de gabinete continuam no gabinete. As corujas continuam no galho. E algumas delas, que já tinham recebido o rato para uma conversa, agora são chamadas a decidir o destino dele. Na floresta, isso tem nome: a raposa tomando conta do galinheiro. No Brasil, tem carimbo.