Geral Nacional
O silêncio antes do samba
Quando o cansaço vira distância daquilo que decide o nosso futuro.
23/09/2026 18h36
Por: Ronaldo Didini Fonte: RONALDO DIDINI
Ronaldo Didini

No elevador lotado, ninguém falava. Nenhum "bom dia", nenhum "como vai". Cada um olhava para o celular, para o chão ou para o numerozinho vermelho dos andares, como se ali estivesse a resposta de alguma coisa.

Elevador sempre foi lugar de silêncio, eu sei. Mas a poucos dias da eleição, aquele silêncio pesava mais. Tinha cheiro de cautela. Qualquer palavra podia denunciar um voto, e o voto do outro virou assunto que ninguém quer abrir. Melhor não saber. Melhor não dizer.

Eu também não disse nada. Fui cúmplice.

A porta abriu e cada um saiu apressado, como quem se livra de um estorvo. Lá fora, a cidade era a de sempre: carro, buzina, gente.

Peguei um táxi. No rádio, alguém falava de democracia. O taxista baixou o volume, me olhou pelo retrovisor e disse: "Me desculpe, doutor, mas quem aguenta ouvir isso?"

E colocou um samba.

Não discuti com ele. Entendo o cansaço. Foram anos de gritaria, de almoço de família que terminou em briga, de grupo de WhatsApp virado campo de batalha. Qualquer um desliga o rádio.

Mas me lembrei de Pilatos. Diante de Jesus, ele perguntou: "O que é a verdade?" E não esperou a resposta. Virou as costas e foi falar com a multidão. Pilatos não foi covarde por não saber. Foi covarde por não querer ouvir.

O problema não é a democracia. É o silêncio de quem desistiu dela. A democracia aguenta discussão, aguenta briga, aguenta até grito. O que ela não aguenta é gente baixando o volume.

O samba estava bonito. Só não pode tocar no lugar da conversa.