
No domingo, um amigo me perguntou: "Sabia que, se eu disser que uma trans não é mulher, posso ser acusado de crime?" Belisquei o braço. Doía. Estava acordado.
Fui atrás. Em 2019, o Supremo decidiu que transfobia se pune como racismo, até o Congresso fazer uma lei sobre o assunto. Agora o Senado aprovou um projeto que coloca a misoginia na mesma Lei do Racismo, e ele espera votação na Câmara. Crime inafiançável, de dois a cinco anos de cadeia para quem "exteriorize ódio ou aversão". O Supremo avisou que pregar a própria fé não é crime; crime é o discurso de ódio. No papel, tudo muito bonito. A pergunta é quem vai dizer, no balcão da delegacia, onde termina a convicção e começa o ódio. Fundi a cabeça.
Esses dias abri a Bíblia na mesa da cozinha, como fazia minha avó: "Deus os criou homem e mulher… Sejam férteis e multipliquem-se!" Minha avó punha o dedo na página e dizia: "Isso não é opinião, é chão." Pois bem. O chão continua debaixo dos meus pés. Só que agora, antes de pisar, eu olho para os lados.
Cada um é dono da própria vida e responde por ela. Respeitar alguém não me obriga a concordar com ele, e discordar não me faz criminoso. O problema começa quando a lei deixa tão nebulosa a fronteira entre crença e crime que o cidadão comum prefere calar a arriscar. Sociedade livre é aquela em que se pode discordar sem medo da polícia.
Olhei para o quiosque. Uma trans tomava cerveja no balcão. Do outro lado da rua, uma senhora com a Bíblia debaixo do braço esperava o sinal abrir. Ainda não tinham se visto. Pensei: e se uma dissesse o que pensa, a outra também, e ninguém saísse algemada? Só duas cabeças pensando diferente.
O garçom trouxe a conta. Perguntei, meio de brincadeira, se ele tinha medo de ser processado por discordar de alguém. Ele riu, pediu desculpa, riu de novo. Não entendeu a pergunta. Invejei o garçom.
Foi quando elas se viram.
O sinal abriu, a crente atravessou, e a trans saía do quiosque com o copo na mão. Uma de frente para a outra. Não tinha para onde fugir.
A crente apertou a Bíblia contra o peito. A trans segurou o copo. O silêncio durou o tempo de um gole.
Então a crente disse: "Deus te abençoe."
Não era elogio nem ataque. Era um gesto, só isso. A trans olhou para ela. Só olhou. Depois seguiu seu caminho, e a crente foi pela calçada sem olhar para trás.
Fiquei ali, com o troco amassado na mão. Não foi um acordo. Foi um encontro que eu não sei classificar. Aquele "Deus te abençoe" podia ser amor, podia ser medo, podia ser só o jeito brasileiro de não deixar o outro passar sem dizer nada.
Naquela noite, o Brasil não era o Congresso nem as redes sociais. Era uma calçada mal iluminada, uma trans com um copo, uma crente com uma Bíblia e uma frase que ninguém precisou levar à delegacia. Ninguém chamou a polícia. Ninguém precisou. A convivência se resolveu ali mesmo, na calçada, do jeito que sempre se resolveu.
Ainda não fui preso. Ainda posso escrever. Mas, para ser honesto, já não sei exatamente onde termina a opinião e começa o risco.
E isso, mais do que qualquer lei, cansa.