O político estava no parque para inaugurar uma praça. Um perfil que a gente conhece bem. Chegou ao poder como quase sempre se chega por aqui: com a mão direita no cofre público e a esquerda no ombro de algum empresário agradecido. Tem vários apartamentos, todos alugados, mas mora num imóvel funcional, desses que a gente paga sem perceber. Defende que todo mundo pague o aluguel em dia. Menos ele, claro. Tem contas em paraísos que de paraíso só têm o nome, placas de bronze com o próprio nome, retrato na galeria de governos passados e cadeira cativa em conselho de empresa.
Naquela manhã, faltava só cortar a fita.
Entre um político e um passarinho, eu fico com o passarinho. Ao menos ele sabe para onde voa. Aquele político também sabia gorjear, é verdade: gorjeava com as emendas que se multiplicavam enquanto o país desmultiplicava. Dizem nos bares que a prosperidade de certos políticos é a prova de que eles lutam pelo nosso subdesenvolvimento. Nos bares se diz muita bobagem. Essa não é uma delas.
Ali perto, no fio do poste, um passarinho fazia ninho. O fio estava desencapado. Ele não sabia. Sabia do ninho, ignorava o perigo. Não fez curso, não foi eleito, não pediu licença: construiu, com palha e um resto de linha que o vento trouxe.
A gente vota parecido. De olho no ninho, de costas para o fio. Resolve o imediato e esquece quem cuida da fiação. Quem entende do fio é o político. Vive dizendo que as normas devem ser respeitadas, mas nunca precisou de ninho: mora em cobertura com terraço gramado e piscina aquecida.
Começou a cerimônia. Discurso, aplauso, fotógrafo. O político pegou a tesoura dourada, sorriu para a câmera e… o passarinho desceu do fio, bicou a fita, puxou e saiu voando com ela.
"Ora essa! Que passarinho mais esquisito!"
O político não achou graça. Eu achei. Minutos depois, a fita colorida já estava lá em cima, trançada no ninho. Foi a única obra entregue naquele dia. O fio continuava desencapado. Esse, ninguém veio inaugurar.
No fim, é simples. Queremos um lar, mas terceirizamos o sonho. O passarinho não terceiriza nada: pega palha, aguenta o vento e constrói. E nós, que já levamos tanto tombo, continuamos tropeçando nas próprias pernas, engolindo seco e esquecendo a cada quatro anos o que aconteceu nos últimos quatro. Daqui a poucos dias tem eleição. Nessa hora, memória curta sai caro.
O passarinho, a essa hora, já dorme. Amanhã acorda e constrói de novo. Nós, amanhã, vamos discutir se o ninho deve ser redondo ou quadrado.
Quisera ser um passarinho. Não, melhor: um urubu. Lá de cima, urubu enxerga carniça de longe. Em época de eleição, seria de grande serventia