
Ele se chamava Black. Não era nome de batismo, claro. Era apelido, e fomos nós que demos, no quartel, nos anos oitenta. Porque ele era negro e porque era um dos mais folclóricos da turma.
Servimos juntos sete anos. Começamos na EsPCEx e seguimos para a AMAN. Sete anos de caserna até a formatura. Sete anos vendo aquele sorriso largo sobreviver a tudo.
E havia de tudo.
A gente também o chamava de Urko, o gorila de Planeta dos Macacos. Dizíamos que era brincadeira. Não era. Era racismo, só que naquele tempo ninguém dava esse nome. Eu também chamava. A gente ria, e ele ria junto. Nunca vi aquele sorriso desaparecer.
Veio a formatura, e a vida seguiu. Saí do Exército. Em 1995, eu estava do outro lado do mundo, no Zimbabwe, como missionário.
O país carregava uma ferida que não tinha fechado. Décadas de colonização britânica e de segregação racial deixaram marcas que continuavam vivas nas ruas de Harare. Na prática, eram duas cidades: a dos zimbabuanos e a dos estrangeiros, que andavam por ela com um cuidado meio aflito.
Certa manhã, fui evangelizar na outra Harare, acompanhado de um irmão zimbabuano. Senti os olhares de reprovação. Não fiquei muito tempo. Não queria ser o motivo de nenhuma confusão. Voltei para a parte dos estrangeiros, onde havia menos gente e menos olhares.
Terminada a tarefa, fui ao banco sacar a ajuda missionária que uma igreja irmã da África do Sul me mandava.
Foi lá que aconteceu.
Entrei e fui para a fila. O caixa chamou a pessoa que estava atrás de mim. Pensei: engano, agora ele me chama. Chamou outro. E outro. E mais outro.
A fila andava. Eu é que não andava.
Olhei para trás. Sempre havia alguém depois de mim. Sempre. Era como se uma lei invisível determinasse que a minha vez só chegaria quando não sobrasse mais ninguém.
Perguntei:
"What's going on?"
A resposta veio seca:
"Just wait your turn."
Não falei mais nada.
Fiquei ali. Vi os clientes entrarem, serem atendidos e saírem, um a um, e o caixa com o olhar fixo em mim. Lá fora, a luz foi mudando: o sol alto, depois a tarde descendo, depois aquela penumbra que anuncia o fim do expediente.
O banco foi esvaziando até sobrar um cliente na fila.
Eu.
O caixa me olhou. Atendeu. Fechou o guichê.
Saí meio trôpego. E foi andando pelas ruas de Harare que me lembrei de Black. Do sorriso. De todas as vezes em que ele esperou a brincadeira passar, e sorriu. De todas as vezes em que o chamamos de Urko.
Durante anos, achei que aquele sorriso era folclore. Naquela tarde, comecei a entender que era outra coisa.
Reencontrei Black em 1998. Ele veio trabalhar comigo numa campanha eleitoral. O mesmo sorriso largo. Eu é que já não ria do mesmo jeito.
Hoje eu sei o que era aquele sorriso. Era sobrevivência. Era dignidade. Era um jeito de dizer: vocês podem me chamar do que quiserem, mas isso vocês não vão me arrancar.
Racismo é crime. Está na lei. Mas não foi na lei que eu aprendi. Aprendi numa fila de banco em Harare, e tarde demais, o que Black já sabia desde o quartel.
Black morreu há pouco tempo.
Naquela fila, eu esperei algumas horas. Ele esperou a vida inteira. E sorriu o tempo todo, porque precisava sorrir.
Agora, ele pode sorrir à vontade.