Política Nacional
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. E no nosso, quem cabe?
O discurso na ONU à relação com Washington, Pequim e Caracas, a defesa da soberania brasileira esbarra nas contradições de um país que rejeita alguns quintais, mas mantém outros de portas abertas.
24/09/2026 15h16
Por: Ronaldo Didini

Lula subiu à tribuna da ONU na terça-feira e disse que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Frase bonita, redonda, aplaudida. Só que a frase não é dele.

É o título de um livro de Paulo Nogueira Batista Jr., lançado em 2019, depois do impeachment de Dilma Rousseff. Naquela época, a frase soava como um soco na mesa, um "não" dito com todas as letras.

O plenário não sabia de um detalhe. O homem que escreveu isso passou boa parte da vida adulta dentro dos quintais. Foram oito anos no FMI, em Washington, sentado à mesa onde se decide o destino dos países endividados. Depois ele pulou o muro e foi ser vice-presidente do banco dos BRICS, em Xangai, o quintal que se oferece como alternativa ao primeiro.

Ganhou salário dos dois, e salário bom. Conheceu as duas cozinhas, comeu nas duas mesas e, depois de tudo, escreveu um livro para dizer que nenhuma presta. Talvez porque, entre Washington e Xangai, nunca tenha encontrado um lugar que fosse seu.

A frase não perde valor por isso. Quem reclama do quintal depois de morar nele pelo menos sabe do que está falando.

Acontece que, na ONU, ela chegou bem acompanhada. Veio no mesmo discurso em que o presidente defendeu que os venezuelanos decidam o próprio destino sem interferência estrangeira e citou Cuba e Nicarágua ao condenar a ingerência externa. A frase que nasceu para defender a soberania brasileira acabou servindo de cerca para o quintal dos amigos. Na Venezuela, aliás, quem impede o povo de decidir mora em Caracas, e não em Washington.

Tem mais. O Brasil não cabe no quintal de ninguém, diz o presidente, mas o nosso é tão espaçoso que os chineses já se instalaram nele. Montam carro na Bahia, puxam linha de energia de norte a sul e levam a maior parte da soja e do minério que a gente exporta. Para o quintal dos outros a gente não vai. O nosso fica de porteira aberta, dependendo de quem bate.

E ninguém naquele plenário tocou no que de fato transforma um país em quintal. O FMI ficou para trás, o Brasil não deve um centavo a ele desde 2005. O problema hoje é o juro altíssimo que se paga todo mês para acalmar o mercado, é vender soja e minério e comprar lá fora a tecnologia que usamos no dia a dia. Tem quintal para onde a gente é empurrado. E tem quintal onde a gente se acomoda.

O intelectual escreve, o político cita, o plenário aplaude, e ninguém lê o livro. Fica o título, o conteúdo evapora. É o destino de toda frase boa num país que lê pouco e aplaude muito.

Nogueira deve ter se divertido. Tanto que disse, em entrevista, que foi o plágio de que mais gostou na vida. Senso de humor, pelo menos, ele tem.

Eu também gosto da frase e assino embaixo. O Brasil não cabe no quintal de ninguém, seja o de Washington, o de Pequim ou o de Caracas. Mas soberania que só se levanta contra um lado tem outro nome: preferência.

A frase é boa, e é por isso que funciona. Cabe num cartaz, num tuíte, num discurso de vinte minutos.

Cabe em qualquer lugar. Até num quintal.

P.S.: O livro está na internet, de graça. Quem quiser ler, leia no quintal, que é onde a gente se sente mais à vontade: Acesse o livro