A bondade, em política, tem calendário eleitoral. A pouco mais de uma semana da eleição, Lula, o mau samaritano, farejou que o tal "já ganhou" não era bem assim. Raposa velha não precisa de pesquisa, sente o cheiro. E, sentindo, descobriu que tem coração. Um coração enorme, generoso… e hipócrita. O coração bateu primeiro no Bolsa Família, que sobe 15%. O governo jura que é apenas a inflação acumulada desde 2023, coisa prevista em lei, e talvez seja mesmo. Mas o dinheiro novo cai na conta justamente em 1º de outubro, três dias antes da urna. Não é caridade: é campanha com dinheiro do contribuinte. O buraco da dívida pública agradece. O futuro que se dane: ele não vota. Nas bets, a conversão ganhou ares de espetáculo. A porta foi aberta pelo Temer, em 2018, mas foi o Lula, o mau samaritano, que regulamentou as apostas e viu, do gabinete, o país virar um cassino. Em 2023, na votação da Lei das Bets, orientou a base a derrubar a emenda que impediria beneficiários do Bolsa Família de apostar. No ano seguinte, eles gastaram R$ 3 bilhões em apostas num único mês. Agora, numa canetada, Lula, o mau samaritano, decreta que era tudo um câncer. O dono da banca sobe ao púlpito para pregar contra o vício. E o pobre que apostou o auxílio no Tigrinho que se explique. Faltava o Desenrola 3.0. Se os anteriores tivessem resolvido, não seria preciso um terceiro: três em cada dez contratos renegociados voltaram à inadimplência. Agora o governo vai comprar dos bancos, com desconto, dívidas que já eram dadas como perdidas. O endividado agradece de joelhos. O banco agradece de terno: recebe dez reais por uma dívida de cem. Os leilões ficam para novembro, depois da eleição. É bondade paga com cheque pré-datado, e quem assina é o contribuinte. Já preguei essa parábola em mais de um continente. O samaritano de Lucas para, cuida do ferido, leva-o a uma hospedaria e paga do próprio bolso. Nunca imaginei uma versão em que ele também parasse, também cuidasse, mas deixasse a conta com o hospedeiro e ainda pedisse aplauso na saída. Nessa versão, o mau samaritano é Lula. Reajuste, canetada e Desenrola seguem o mesmo "evangelho": o do calendário. E o milagre esperado não é a cura do ferido, é a amnésia do eleitor. Bondade sincera não tem data de validade. Em Brasília, até a caridade vence junto com a pesquisa. Mas o brasileiro está cansado… muito cansado… de ser o ponto percentual que o governo corteja em setembro e esquece em novembro. Quer ser tratado como gente o ano inteiro, e não só quando a urna está à vista. Já conhece os maus samaritanos.