Todo domingo é assim. Otávio sai da missa das dez, Nelson sai do culto da manhã, e os dois se encontram no mesmo banco da praça, de frente para a matriz. Quarenta anos de amizade e nenhuma conversão. Já nem tentam.
Seu Isaac estava com o carrinho no lugar de sempre. Guarda o sábado, por isso trabalha no domingo. Pipoca para as crianças, milho para os pombos. Nelson comprou o saquinho de sempre.
— Viu isso? — Otávio levantou o celular. — Dizem que o Flávio Bolsonaro quer tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira.
— Vi. E você acredita?
— Eu, não. Minha mãe acreditou. Passou a manhã rezando na frente da imagem.
Nelson jogou um punhado de milho no chão. Os pombos desceram.
— Diga a ela que ninguém vai tirar nada. Aparecida é santa e padroeira para os católicos, e vai continuar sendo.
— O projeto existe, sabia? De um deputado que era pastor.
— De 2007. Arquivaram no ano seguinte. Dezoito anos na gaveta, até alguém soprar a poeira e arrumar um dono novo para o papel.
— Também não nasceu do nada. O Flávio falou que o primeiro decreto dele seria dizer que o Brasil é do Senhor Jesus. E a GloboNews ainda deu uma mãozinha.
— Pois é. Uma frase verdadeira, um papel verdadeiro, um comentário no ar. Cada peça é de verdade. O desenho é que é falso. A mentira deslavada a gente reconhece de longe. Essa, a gente compartilha antes de perceber.
— E o pai dele consagrou o Brasil a Nossa Senhora em 2022, lá no Alvorada.
— Em semana de eleição, é bom lembrar. Mas consagrou. Agora querem que a gente acredite que o filho vai despejar a santa.
Otávio guardou o celular e ficou olhando a torre da matriz.
— Você fala com muita calma de uma santa que nem é sua, Nelson.
— Justamente por isso. Meu velho pastor dizia que o nono mandamento não pergunta a religião de ninguém. "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo." Não está escrito "contra o próximo que reza igual a você". Quem espalha mentira contra o outro lado peca do mesmo jeito. Só que com a Bíblia debaixo do braço.
— E se a mentira fosse contra os crentes?
— Aí eu esperava que você fizesse o mesmo por mim. A mentira não tem religião, Otávio. Hoje ela usa o nome da santa de vocês. Amanhã, o de um pastor. Depois, o seu.
O celular de Otávio tocou. Era a mãe. Ele se levantou e foi atender perto da igreja. Nelson sacudiu o resto do milho para os pombos, acenou para o amigo e atravessou a praça.
Seu Isaac fechou a tampa do carrinho. Tinha ouvido tudo, como ouve todo domingo, sem dar um pio. Judeu não se mete em briga de santo, aprendeu desde menino. Mas lembrou de Hamã, o ministro do rei da Pérsia, que foi ao palácio falar mal de um povo espalhado pelo reino, "cujas leis são diferentes das dos outros povos". Era meia verdade. Bastou para o rei assinar a sentença de morte de todos eles. Todo Purim, na sinagoga, Seu Isaac bate os pés no chão quando leem aquele nome.
Empurrou o carrinho para casa pensando que o Nelson tinha razão. A mentira não tem religião. Mas sempre escolhe um povo.