Geral Nacional
“A boniteza da palavra civilidade”
Meu patrão é homem das escritas.
25/10/2026 09h04
Por: Gabriel Chalita

Estava indo para casa depois de um dia grande de trabalho. Vi uns diz-que-diz-que em uma esquina. Não sou das que aceleram as notícias dizendo aqui o que ouvi ali, mas parei para saber. 

Eram uns nervosismos sobre política. Um dizia xingamentos para convencer o outro. Avisava da burrice da escolha. O xingado meneava a cabeça e dizia menos. E o outro aumentava a voz. Foi quando um terceiro falou a tal da palavra, "civilidade". Eu nunca tinha ouvido. 

Meu patrão é homem das escritas. Cheguei ao trabalho, no dia seguinte, e fui perguntar.  Achei bonita a explicação. Não sei dizer tudo o que ele disse, mas disse ele da gentileza, do respeito ao direito do outro de pensar diferente, de agir diferente, desde que se lembrem das normas da vida social. 

Acho feio quem fala alto ao celular. Fico sem reação quando vejo os que não param nas faixas de pedestre ou os que param em fila dupla ou os que acham que as filas foram feitas apenas para os outros. 

Não tive muito estudo, mas tive a vivência da aprendizagem de pessoas que nunca deixaram de cultivar a sabedoria. Nunca me esqueço de Dona Ana explicando sobre o cuidado de não nos influenciarmos pelos outros. Apesar de não ser fácil. 

Lembro dos exemplos. Mesmo quem vai a uma churrascaria e não come carne, come salada, por exemplo, sai de lá com cheiro de carne. Quem entra em uma peixaria sai com cheiro de peixe. Quem passa por uma obra sai com o pó da obra no corpo. Quem entra em uma loja de perfumes sai perfumado.

Eu tomo cuidado com o que faço, com o que ouço. Não sou da briga. Sou do silêncio. Não sou do eco. O meu patrão diz que Eco era uma ninfa, não sei direito o que é, mas ela teria irritado uma deusa e recebeu um castigo, ela nunca mais poderia falar por si mesma, só repetiria as últimas palavras que ouvisse. Eu não sou assim. Até faço sorrisos de concordância e, depois, faço o que acho correto. E, se preciso dizer, penso antes. E, se quero convencer alguém, não brigo. 

Fico pensando na esquina. Não é sendo xingado de burro que alguém muda de opinião. Não é ouvindo palavras de desamor que se brota o amor pela cidade. Por que tanto a palavra política como a palavra civilidade dizem respeito à cidade. E, se há muita gente votando errado, é porque não aprenderam o certo. Dona Ana já dizia, naquela época dos que vendiam voto. 

O meu patrão fala dos que votam por medo e não por amor, um erro, penso eu. Dos que votam por brincadeira e não por seriedade. Ele estava indignado com dois jovens que já foram eleitos desrespeitando outros que não venceram. Também acho errado. O vencedor tem que ter, como é mesmo a palavra? Civilidade. E tem que ser exemplo. 

Acho que alguma coisa está muito errada neste país tão grande e tão cheio de possibilidades. A civilidade se aprende desde sempre. Parece que todo mundo passou em algum lugar de cheiro ruim e só sabe passar isso adiante. 

Eu vou é passar na Igreja de Santa Rita, a santa das causas impossíveis, e rezar por essa gente impossível de entender que o ódio não constrói nada. 

A civilidade é uma boniteza de palavra. E de gestos. Eu sou das que cumprimentam quem passa por mim na rua. Sou das que conversam nos supermercados. Sou das que ajudam quem precisa. E sou das que tentam viver o que Jesus ensinou sobre o amor. Aliás, nessas políticas, é tanta gente falando de Jesus e amando tão pouco. Não combina. 

Como diz o padre Hugo, da Igreja de Santa Rita, o cristão sem amor é como jardim sem flor, não perfuma nem embeleza a vida de ninguém.