
Em uma área com lâmina d’água de aproximadamente 30 metros, formações geológicas localizadas a cerca de 2,5 quilômetros abaixo do leito marinho revelam um novo potencial produtivo para Sergipe. Elas abrigam depósitos de sais minerais, entre eles a silvinita, rocha associada à presença de potássio. É nesse ambiente que está sendo desenvolvido um projeto que propõe uma abordagem inovadora no Brasil e no mundo: a mineração de potássio offshore.
O projeto é desenvolvido pela South Atlantic Potash (SAP), com apoio da Agência Sergipe de Desenvolvimento (Desenvolve-SE). A empresa concentra seus estudos na exploração de potássio offshore na Bacia de Sergipe-Alagoas. Segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), a SAP detém cerca de 189 mil hectares autorizados para pesquisa e tem mapeado nove alvos exploratórios de silvinita. Além das características geológicas da bacia, a infraestrutura energética, rodoviária e portuária existente cria condições favoráveis ao desenvolvimento do empreendimento.
Segundo o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Desenvolve-SE, Ademario Alves, o avanço dos estudos e dos investimentos no projeto de potássio offshore reforça o papel estratégico da Agência na atração de empreendimentos.
“O apoio a projetos estruturantes na área de mineração e fertilizantes reforça o compromisso de Sergipe em atrair investimentos de alto impacto, consolidando o estado como um polo estratégico para o agronegócio nacional e gerando novas oportunidades de emprego e renda para os sergipanos”, destaca.
Mineração offshore
Ao contrário da imagem tradicional de uma mina, o projeto de exploração de potássio offshore não prevê a abertura de grandes escavações no fundo do oceano. A proposta é adaptar ao ambiente marinho a técnica conhecida como lavra por dissolução (solution mining). Nesse método, são utilizados poços para alcançar as camadas minerais e água para dissolver os sais presentes no depósito.
Tudo começa com a perfuração de poços a partir de estruturas instaladas no mar. A água é bombeada até as camadas subterrâneas para dissolver os sais, formando uma salmoura rica em minerais. Essa solução retorna à superfície e é transportada até uma planta de processamento em terra, com o uso de equipamentos e práticas empregados pela indústria de petróleo e gás offshore. Na unidade terrestre, a salmoura passa por processos de evaporação e cristalização para separar os diferentes sais e obter o cloreto de potássio (KCl).
O CEO da South Atlantic Potash, Bonzi Yokomizo, explica que essa tecnologia pode reduzir significativamente os impactos ambientais da mineração.
“Do ponto de vista ambiental, a lavra por dissolução não gera rejeitos sólidos, dispensa barragens e não utiliza reagentes químicos”, afirma.
Assim, o cloreto de sódio separado durante o processamento poderá ser comercializado como coproduto. Já a salmoura residual deverá passar por controle específico, com modelagem hidrodinâmica e utilização de difusores, no âmbito do processo de licenciamento ambiental.
Potencial geológico
O projeto da South Atlantic Potash para a exploração de potássio offshore na costa sergipana está associado ao Membro Ibura, da Formação Muribeca, na Bacia de Sergipe-Alagoas. A formação dessas reservas remonta a antigos processos de evaporação de águas marinhas, que favoreceram a concentração e a precipitação de diferentes sais. Entre eles estão minerais como a silvinita e a carnalita, associados à presença de potássio.
A ocorrência de potássio em Sergipe, porém, não é uma descoberta recente. Os primeiros depósitos foram encontrados em terra pela Petrobras, em 1963, no município de Rosário do Catete. A descoberta ocorreu de forma acidental, enquanto a estatal realizava trabalhos de prospecção e pesquisa de petróleo nas bacias sedimentares terrestres do estado. É no município que funciona a única mina de potássio em operação no Brasil, no Complexo Mineroquímico de Taquari-Vassouras.
O conhecimento geológico produzido pela atividade de petróleo e gás também passou a contribuir para a investigação do potencial de potássio além da faixa terrestre. Dados obtidos em perfurações e levantamentos sísmicos permitiram ampliar a compreensão sobre a continuidade das formações geológicas em direção à costa sergipana.
Segundo a base de dados históricos da SAP, mais de 200 poços perfurados para a exploração de óleo e gás contribuíram para a compreensão das camadas geológicas da região. Já os levantamentos sísmicos 2D e 3D cobriram toda a área de exploração da empresa. Entre esses registros, quatro poços atravessaram o Membro Ibura, da Formação Muribeca, e confirmaram a presença de silvinita, rocha que contém minerais de potássio de interesse para o projeto.
Em um desses poços, o 1-SES-003-SE, foi identificada uma camada de 27,5 metros de silvinita a aproximadamente 2,5 quilômetros de profundidade. A partir da análise conjunta dos dados dos poços e das informações sísmicas, a empresa delimitou nove alvos exploratórios no Baixo Mosqueiro. Essas áreas ainda não representam reservas minerais comprovadas, mas são consideradas prioritárias para novas sondagens e estudos destinados a avaliar a continuidade, as dimensões e o potencial das ocorrências de potássio.
Potássio estratégico
A exploração de potássio na costa sergipana está inserida em um desafio estratégico para o agronegócio brasileiro: a dependência do mercado externo para o fornecimento do mineral utilizado na produção de fertilizantes. Estudos da South Atlantic Potash apontam que o Brasil é o segundo maior consumidor mundial de potássio e importa mais de 96% do cloreto de potássio (KCl) consumido no país. Canadá, Rússia e Belarus concentram cerca de 87% da oferta internacional, segundo os dados apresentados pela empresa.
De acordo com Bonzi Yokomizo, uma produção inicial de 2 milhões de toneladas do mineral por ano representaria cerca de 14% da demanda nacional atual — aproximadamente quatro vezes a produção brasileira atual —, além de gerar uma economia de US$ 600 milhões a US$ 800 milhões por ano, conforme o preço internacional.
O CEO destaca ainda que, nesse contexto, a produção nacional pode contribuir para diversificar o abastecimento e reduzir a exposição do país às oscilações do mercado internacional.
“O ganho mais importante é a segurança de abastecimento, reduzindo a dependência do Brasil de importações do fertilizante em cenários de choques no mercado externo”, ressalta.
Para o diretor da Desenvolve-SE, a riqueza mineral de Sergipe em potássio coloca o estado em posição estratégica para a agricultura brasileira. “Sergipe é uma referência nacional na produção de potássio, um insumo essencial para o setor agrícola. Os depósitos locais são estratégicos para atender à crescente demanda por fertilizantes, especialmente em um país como o Brasil, que desempenha um papel importante na produção global de grãos”, enfatiza.
Próximas etapas
O projeto ainda se encontra em fase de avaliação técnica conceitual. A próxima etapa é a realização de uma campanha de sondagem offshore confirmatória. Também estão previstas a estimativa formal dos recursos minerais, a elaboração dos estudos de pré-viabilidade e viabilidade, o desenvolvimento da engenharia, o licenciamento ambiental e a estruturação do financiamento. Com o avanço dessas etapas, a mineração de potássio offshore poderá levar para o ambiente marinho uma atividade que Sergipe conhece há décadas em terra.



