Internacional INTERNACIONAL
Migrantes mexicanos desistem de ir para os Estados Unidos
O fechamento da fronteira dos Estados Unidos muda a vida de milhares de migrantes no México
29/10/2026 17h54
Por: Redação - João Nagai Fonte: RBTV
RBTV

Durante anos, Tijuana foi uma sala de espera para quem buscava asilo nos Estados Unidos.

Tradicional ponto de passagem rumo ao país vizinho, a cidade recebeu cerca de 25.000 migrantes estrangeiros entre 2020 e 2025. Hoje, após o fechamento da fronteira impulsionado por Donald Trump e o fim do programa CBP One, cada vez mais pessoas estão abrindo mão do sonho americano para criar raízes no México.


A mudança começou em janeiro de 2025, quando Trump voltou à Casa Branca e endureceu a política migratória, multiplicou as deportações e pôs fim ao aplicativo que permitia solicitar proteção na fronteira. Naquele momento, havia cerca de 270.000 casos em aberto, incluindo 30.000 migrantes que já tinham data para cruzar a fronteira a partir do México. Entre eles estava o venezuelano Milko García.

“Quando cancelaram a data no começo, eu tinha aquela esperança de que ainda podíamos passar, nos primeiros meses... E depois de seis meses, a gente pensou: ‘já era, vamos tocar a vida aqui’.”, diz Milko García, venezuelano, não conseguiu obter uma data por meio do CBP One

Depois de cruzar a perigosa selva do Darién, entre a Colômbia e o Panamá, García ficou retido em Tijuana. Hoje trabalha como corretor de imóveis e afirma que já não pensa em recomeçar do zero nos Estados Unidos. Também não pretende pagar os 10.000 dólares que podem custar as travessias clandestinas.

A história se repete para muitos outros migrantes. A venezuelana Heiri Maya chegou em 2022. Depois de fracassar na tentativa de obter uma data migratória, transformou sua paixão pela culinária venezuelana em um negócio e, após ganhar popularidade nas redes sociais, abriu há um mês seu próprio restaurante em Tijuana.

“Me sinto bastante à vontade aqui em Tijuana. Tijuana me acolheu, toda a comunidade de Tijuana foi um diferencial para eu continuar aqui e não ter a possibilidade de buscar outras opções, porque realmente me ajudaram bastante, aqui muita gente me estendeu a mão.”, disse Heiri Maya, venezuelana, não conseguiu obter uma data por meio do CBP One

Uma pesquisa da Organização Internacional para as Migrações revelou que 45% dos migrantes entrevistados na região decidiram fazer do México seu lar. A mudança também é visível nos abrigos de fronteira que antes viviam lotados.

“A realidade é essa: não há tantos migrantes nas áreas de fronteira como se via nos anos anteriores, até 2024.”, disse José María García, Diretor do Refúgio Juventud 2000

Muitos abrigos fecharam ou funcionam com ocupação mínima. No Juventud 2000 restam apenas cerca de dez residentes. Ao mesmo tempo, organizações como Al Otro Lado, que antes estavam sobrecarregadas, agora tentam orientar quem busca regularizar sua situação migratória.

“Vejo que todo o entorno e a política migratória no México é para que eles não fiquem, tudo é pensado para que não fiquem. Então, não há muita informação, nada acontece, porque a ideia é desestimular, para que eles vão embora mesmo.”, diz Soraya Vázquez Pesqueira, subdiretora da ONG Al Otro Lado

Segundo a agência da ONU para refugiados, o México recebeu cerca de 70.500 pedidos de asilo em 2025. Enquanto as travessias rumo aos Estados Unidos diminuem e os abrigos de fronteira esvaziam, um número crescente de migrantes tenta construir seu futuro ao sul da fronteira.