Miguel Báez continua vasculhando os escombros de prédios que desabaram por causa dos terremotos na Venezuela.
Ele atua como voluntário nas operações de resgate desde a primeira noite após os tremores; agora, é movido pela necessidade desesperada de encontrar os corpos de seus entes queridos.
SONORA - Miguel Báez, voluntário em busca dos corpos de seus familiares:
"Quero ficar aqui até o último — primeiro, pela incerteza de não saber se eles sobreviveram ou morreram, e também para, pelo menos, encontrá-los e poder dar-lhes um sepultamento digno, como eles merecem."
Báez acredita que a mãe, Solangel, o irmão, Héctor, e a sobrinha, Susej, ficaram presos em um conjunto habitacional de 12 andares no bairro de Caraballeda.
Cães farejadores vasculharam a área, e equipes de resgate do Brasil, Estados Unidos, México, Honduras e outros países entraram com sensores... Sem que nenhum sinal de vida fosse detectado, Báez perdeu a esperança de encontrar os parentes vivos no décimo dia. Buscar entre as fendas dos escombros o deixou traumatizado pela visão de cadáveres e corpos mutilados...
e pelo medo da própria morte.
SONORA - Miguel Báez, voluntário em busca dos corpos de seus parentes: "Se torna uma espécie de trauma — é psicológico. Porque, na sua rotina, você tenta lutar, se empenha em realizar resgates e, nesse processo, se depara com os mortos.
Depois, quando vai dormir, a exaustão e o estresse tomam conta; seu subconsciente foca nisso, e é isso que você imagina." As torres OPP 33 foram reduzidas a escombros, mas Báez conseguiu recuperar o violão do irmão Héctor, de 28 anos, e a viola da sobrinha Susej, de 10 anos. Ambos eram músicos.
Os corpos ainda não foram encontrados, quase três semanas após a tragédia que deixou cerca de 4.500 mortos.
Desde o primeiro dia do desastre, sua rotina tem consistido em dormir poucas horas e acordar ‘pensando no que aconteceu, em quem estava no turno da noite e que corpo foi encontrado’.
SONORA - Miguel Báez, voluntário em busca dos corpos de seus familiares: "É difícil tentar viver a vida toda com essa incerteza.
Não é fácil. É por isso que ainda estamos aqui; é a mesma rotina todos os dias. Você dorme muito pouco, exposto à chuva; levanta, come, caminha, trabalha, remove escombros...
é assim para nós. E há tantos outros como nós." Báez dorme em barracas doadas, ao lado de outros parentes, enquanto máquinas pesadas removem os escombros — em meio ao mau cheiro e a nuvens de moscas.
Ele sabe que corre risco de adoecer.
SONORA - Miguel Báez, voluntário à procura dos corpos de seus parentes:
"A maioria de nós aqui — por estarmos expostos aos odores, às bactérias, aos corpos, à poeira — acaba contraindo coisas como gripe, febre, infecções ou bronquite, e precisamos de atendimento médico." Báez entra pelos fundos das ruínas, sobe até o sexto andar e chega a uma abertura com menos de um metro de largura; lá dentro, ele se desloca entre placas de concreto sustentadas por fragmentos finos de escombros. Apesar do perigo, o maior desejo é recuperar os corpos de seus parentes.