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‘Até o último’: o trauma de um voluntário na Venezuela para encontrar os parentes
Miguel Báez rasteja por um túnel estreito em meio aos escombros de um terremoto na Venezuela. Impulsionado pela necessidade desesperada de encontrar os restos mortais de seus entes queridos, ele enfrenta o trauma dessa jornada — se deparando com cadáveres e corpos mutilados, e chegando a temer pela própria vida.
14/07/2026 10h09
Por: Redação - Felipe Fonte: agência FransPress
agência Frans Press

Miguel Báez continua vasculhando os escombros de prédios que desabaram por causa dos terremotos na Venezuela.

Ele atua como voluntário nas operações de resgate desde a primeira noite após os tremores; agora, é movido pela necessidade desesperada de encontrar os corpos de seus entes queridos.

SONORA - Miguel Báez, voluntário em busca dos corpos de seus familiares:

"Quero ficar aqui até o último — primeiro, pela incerteza de não saber se eles sobreviveram ou morreram, e também para, pelo menos, encontrá-los e poder dar-lhes um sepultamento digno, como eles merecem."

Báez acredita que a mãe, Solangel, o irmão, Héctor, e a sobrinha, Susej, ficaram presos em um conjunto habitacional de 12 andares no bairro de Caraballeda.

Cães farejadores vasculharam a área, e equipes de resgate do Brasil, Estados Unidos, México, Honduras e outros países entraram com sensores... Sem que nenhum sinal de vida fosse detectado, Báez perdeu a esperança de encontrar os parentes vivos no décimo dia. Buscar entre as fendas dos escombros o deixou traumatizado pela visão de cadáveres e corpos mutilados...

e pelo medo da própria morte.

SONORA - Miguel Báez, voluntário em busca dos corpos de seus parentes: "Se torna uma espécie de trauma — é psicológico. Porque, na sua rotina, você tenta lutar, se empenha em realizar resgates e, nesse processo, se depara com os mortos.

Depois, quando vai dormir, a exaustão e o estresse tomam conta; seu subconsciente foca nisso, e é isso que você imagina." As torres OPP 33 foram reduzidas a escombros, mas Báez conseguiu recuperar o violão do irmão Héctor, de 28 anos, e a viola da sobrinha Susej, de 10 anos. Ambos eram músicos.

Os corpos ainda não foram encontrados, quase três semanas após a tragédia que deixou cerca de 4.500 mortos.

Desde o primeiro dia do desastre, sua rotina tem consistido em dormir poucas horas e acordar ‘pensando no que aconteceu, em quem estava no turno da noite e que corpo foi encontrado’.

SONORA - Miguel Báez, voluntário em busca dos corpos de seus familiares: "É difícil tentar viver a vida toda com essa incerteza.

Não é fácil. É por isso que ainda estamos aqui; é a mesma rotina todos os dias. Você dorme muito pouco, exposto à chuva; levanta, come, caminha, trabalha, remove escombros...

é assim para nós. E há tantos outros como nós." Báez dorme em barracas doadas, ao lado de outros parentes, enquanto máquinas pesadas removem os escombros — em meio ao mau cheiro e a nuvens de moscas.

Ele sabe que corre risco de adoecer.

SONORA - Miguel Báez, voluntário à procura dos corpos de seus parentes:

"A maioria de nós aqui — por estarmos expostos aos odores, às bactérias, aos corpos, à poeira — acaba contraindo coisas como gripe, febre, infecções ou bronquite, e precisamos de atendimento médico." Báez entra pelos fundos das ruínas, sobe até o sexto andar e chega a uma abertura com menos de um metro de largura; lá dentro, ele se desloca entre placas de concreto sustentadas por fragmentos finos de escombros. Apesar do perigo, o maior desejo é recuperar os corpos de seus parentes.