Geral Gabriel Chalita
Fazia um sol bonito no despertar do 8 de janeiro.
Amanheci agradecendo.
14/07/2026 15h02 Atualizada há 3 meses
Por: Redação - Felipe Fonte: Própria
Gabriel Chalita

Escrever  é um vertical encontro com o sagrado que faz do nascer das palavras uma razão de estar em algum canto do mundo, escrevendo mundos, para que a horizontalidade das relações humanas seja mais humana.

Agradeci o primeiro encontro com Bibi Ferreira e os tantos encontros em que vivemos a vida. Os seus dizeres firmes. A sua alegria inegociável. O seu talento fazendo do palco um altar em que a vida acontece trazendo o céu à terra, elevando a terra ao céu. 

O dia foi dizendo as horas até o momento de estar no SESC Ginástico, palco de tantas vidas entremeadas pelas máscaras da tragédia e da comédia. O teatro está lindo, totalmente reformado. Sua inauguração foi, há não muito, com Fernanda Montenegro.  Fernanda, extraordinária, emocionou se emocionando. Lembrou dos tantos textos de cena e das cenas escritas em seu coração por Fernando Torres.  No mesmo palco sagrado do teatro, da vida. 

As pessoas iam chegando e olhando os seus lugares. E sentando. No palco, a orquestra afinava os instrumentos, enquanto Barbara, Giulia, Luiza e Fernanda olhavam nos espelhos do camarim e da alma e diziam o sim dito por todo artista antes da noite única de cada noite de espetáculo. 

O autor, no dia da estreia, apenas espera. Espera que a história contada cumpra o seu papel.E a história na estreia do 8 de janeiro, no Rio de Janeiro, é a de Bibi Ferreira. O início é o lamento da morte da grande atriz, aos 96 anos. Da morte à vida que não morre. 

As 4 atrizes eram inteiras na honra à grande atriz. Das cadeiras, nasciam os aplausos e os dizeres entusiasmados de quem ama amar a vida. A vida que vive no teatro. 

Bibi foi aplaudida em Paris vivendo Piaf. Em Nova York, Frank Sinatra. Em Portugal, Amalia Rodrigues. No Brasil, vivendo todos eles e tantas elas. Tantas mulheres e uma única Bibi. Cantava ela lindamente também em espanhol. Suas peças dramáticas eram intensas. Como intensa deve ser a vida de quem leva a vida à sério. 

O fim do espetáculo deixa uma vontade de prosseguir. De prosseguir amando o amor. De prosseguir respeitando cada mulher, cada homem que faz teatro. 

Nas estreias, somos chamados ao palco. 

Fomos. Queiroz, o presidente da FECOMERCIO RJ se emocionou ao falar dos artistas. Da vida dura de quem vive da arte. Falou, também, de Fernanda e de Bibi. E da entrega ao Rio de Janeiro de um teatro que tem passado e que quer fazer futuro. 

Thina, a filha de Bibi, estava conosco no palco. Carlos, o diretor musical, e Gustavo, o diretor da peça, abraçavam Guilherme, o produtor. E uma equipe grande que sabe que cada papel é importante para que as pessoas subam, como sobem as cortinas que significam que há uma história a ser contada. 

Bibi ou Fernanda dizem que o tempo não tira a boa tensão ou em palavras mais poéticas, a sensação de borboletas no estômago que antecede a entrada no palco. Tanto uma quanto a outra chamam isso de responsabilidade e de respeito. 

Oxalá em todas as profissões, em todas as ocupações na vida, nos ocupássemos desse sagrado que é o encontro com o outro. 

Saímos do teatro e vimos a lua. Estava tímida. Meio sorridente. Romantizando, talvez, a noite. Dentro de nós. Fiquei pensando em quantas conversas conversei com Bibi sobre o amor. 

Eu era um jovem escritor e ela, a dama, fez um texto meu chamado "De tudo que mora em mim". Como foi benevolente o Autor da vida ao nos presentear com a memória. Em uma vida, vivemos muitas. Como os artistas que sobem ao palco. 

O palco é, também, a vida em que temos que sentir o sol bonito que desperta os dias. 

A peça seguirá janeiro e entrará fevereiro no Sesc Ginástico. No burburinho da saída, eu ouvia "eu volto, quero trazer minha mãe", "eu quero ver novamente, faz bem para alma"."Eu vou trazer meus filhos, eles precisam saber quem foi Bibi Ferreira". 

Eu sei de saber e de sentir o amor de Bibi Ferreira. De saber e de sentir que é o amor a personagem mais linda, mais profunda e mais realizadora que temos que desempenhar no tempo e no espaço do nosso existir. 

Como é lindo contar a história de uma atriz que soube viver intensamente o seu papel. E que hoje é sopro de amor nos lembrando do amanhecer ensolarado e dos romantismos do luar. 

 "Quando as lâmpadas se quebram" é o título de minha crônica publicada,  neste domingo,  em O Dia:

Quando as lâmpadas se quebram

Sou um modesto inventor de histórias. Gosto de, inclusive, ao observar as pessoas, imaginar os seus mundos. 

Dia desses, estava em uma praça, passeando com os meus cachorros e ouvi uma senhora dizendo para uma outra senhora: "Acho melhor eu ir, já deu minha hora". As duas com os seus cabelos brancos, com os seus olhos de quem já chorou o tempo e já viu dias claros depois de chuvas fortes. Por que havia chegado a hora de ir? Quem a estava esperando?

O tom de voz parecia quase que uma necessidade de não magoar alguém. Quem seria esse alguém? A outra apenas aceitou meneando a cabeça. Como se já estivesse acostumada com o tempo de deixar ir. 

Quando invento histórias, as minhas se misturam. E, vez em quando, me perco no real e no imaginado. Gosto muito do imaginado porque é filho do real. As plantas não brotam das nuvens. A minha terra firme é a memória que o tempo foi deixando de herança. 

Tia Leila me deixou alguns bens de herança. O maior deles, a delicadeza de me contar histórias e de ler histórias para mim, desde o tempo que eu não tenho como me lembrar com detalhes, então, invento. O que não invento é o sentimento daquele tempo. Nem do tempo de hoje. Hoje, enquanto escrevo, enquanto penso nela.

Tia Leila não tinha o casamento em seus projetos de vida. Gostava da solteirice. Gostava de ser a irmã da minha mãe. Gostava de ser minha tia. Gostava de cuidar dos pais. Um dia, entretanto, morreu Ivete, amiga amada, que era casada com Antonio. Ivete sofreu tempos de um câncer doído. Foi diminuindo na cama. Foi se despedindo consciente da finitude e com uma fé imensa no tempo que vem depois. 

Ivete, pouco antes de morrer, chamou minha tia e disse da viuvez premente do marido Antonio. Minha tia tentou o desfazimento dos argumentos. Jogou crenças de cura. Ivete não pegou. E fez o pedido: "Leila, eu estou indo, não quero que Antonio fique sozinho, você é solteira, amada pelos meus filhos, queria pedir que você se casasse com Antonio". Tia Leila disse nada. Achou o pedido despropositado. Casamentos não se arranjam assim.

Pensou, pensou e conversou com minha mãe. Conversa linda a das duas, "Será que a Ivete vai saber se casei ou não com ele?", "Claro que vai, do céu dá para ver de tudo", "Então, é melhor..." Meses depois da partida de Ivete, minha tia se casou com Antonio, a quem eu já chamava de tio, tão próximos que éramos. 

Tio Antonio tinha uma fábrica de medalhas de santos. E gostava dos trabalhos manuais. Tinha ele por volta de 70 anos, talvez, quando se casou com tinha Leila, que devia ter mais de cinquenta. E foram felizes durante o tempo em que o tempo autorizou permanecerem. 

Um dia, foi o dia de Tio Antonio viver a eternidade. E tia Leila ficou nos questionamentos de como se dá depois da morte. Quem é casado com quem? Eu ria dizendo ser impossível saber, mas que ruim não haveria de ser. 

Pois bem, um dia Tia Leila disse ao marido que na varanda da casa não havia luz. O marido respondeu que havia luz. As lâmpadas é que estavam quebradas. 

Tantos anos depois, penso nessa imagem tão filosófica. O que acontece quando as lâmpadas se quebram? Não há luz. Há luz. O problema não está na fonte que gera. O problema está no quebradiço do que se vê. 

Eu era estudante de filosofia, naquela época, e fiquei dizendo ao Tio Antonio sobre a profundidade da sua explicação. Acho que ele gostou por gostar de mim, mas gastou pouco do seu pensamento pensando no que eu havia dito. E foi fabricar com as mãos alguma peça no cômodo em que gostava de estar. 

Essa história não inventei. Lembro da varanda apagada e da varanda acesa. E lembro de lembrar sempre que todos nós teremos sempre uma fonte de luz dentro de nós, mesmo quando estamos quebrados.

Sou educador preocupado com tantas conclusões apressadas, sem pensamento e sem amor, sobre humanos que erram, sobre humanos cujas luzes não iluminam. Desistir do humano é deixar a varanda da humanidade sem a luminosidade que a torna aconchegante.

Sim. Somos seres do aconchego. Não somos sem o outro. Não nos desenvolvemos sem o outro. 

Tia Leila já se foi há algum tempo. E ela construiu um punhado de mim. É assim com os encontros. Alguns são fugidios feixes de luz, como as senhoras e os seus cabelos brancos e as despedidas naquela praça. Outros fazem vida com a gente, conhecem dos nossos sonhos e das nossas quebraduras e permanecem o tempo de permanecer, mesmo depois que se vão.

Nada nessa vida é em vão. Quando as lâmpadas se quebram, o melhor não é gritar nem desacreditar, é consertar. Há um concerto tão harmonioso em mim, pelo menos hoje, pelo menos enquanto escrevo, de sons de vozes que me ensinaram a amar. 

Sou um modesto inventor de história. Só não invento de desinventar a boniteza da luz, sua real existência, mesmo quando as lâmpadas se quebram.