
Milhares de estrangeiros estão deixando a África do Sul à medida que cresce o sentimento contra imigrantes.
“Estou chorando porque estou deixando meus filhos pequenos.”
Mas por que alguns sul-africanos querem expulsar estrangeiros sem documentação?
Nos últimos meses, ocorreram protestos contra estrangeiros, e grupos de vigilantes atacaram migrantes, inclusive aqueles com situação migratória regular.
Grupos anti-imigração afirmam que a África do Sul está sobrecarregada por estrangeiros em situação irregular, que ocupam empregos, utilizam serviços públicos escassos e seriam responsáveis pelo aumento da criminalidade.
:: O sentimento anti-imigração corresponde à realidade?
Um levantamento do Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas mostrou que 42% dos sul-africanos prefeririam não ter nenhum estrangeiro no país, acima de um terço registrado em 2021.
Em uma pesquisa do Afrobarometer, sete em cada dez sul-africanos disseram enxergar o impacto econômico dos imigrantes como negativo, enquanto 85% afirmaram que as autoridades deveriam reduzir o número de refugiados ou impedir sua entrada.
Dados do instituto nacional de estatísticas mostraram que, em 2023, havia 3,1 milhões de migrantes na África do Sul, o equivalente a cerca de 4,1% da população. Isso é menos do que os 5,6% registrados uma década antes.
Embora ativistas anti-imigração digam que esse número não inclui pessoas sem documentação, a proporção ainda é baixa para padrões internacionais. No Reino Unido, a taxa é de 17%, no Canadá de 22% e na Austrália de 30%, segundo dados da ONU de 2024.
O analista político Xolani Dube afirmou:
“Aqui os bodes expiatórios são os imigrantes, especialmente os imigrantes africanos. Porque a África do Sul é um país de imigrantes de todas as raças. Temos muçulmanos de origem indiana, temos caucasianos. Mas os alvos aqui são aqueles que não têm poder e que são mais acessíveis para nós, que são os imigrantes africanos.”
:: E quanto ao uso dos serviços públicos por migrantes sem documentação?
Economistas afirmam que os sistemas de saúde e educação enfrentam dificuldades em toda a África do Sul, mas isso se deve principalmente à falta de investimentos e à corrupção.
Um relatório de 2018 do Banco Mundial mostrou ainda que, para cada migrante empregado, cerca de dois postos de trabalho são criados para sul-africanos por meio da atividade econômica, já que esses trabalhadores geram renda e consomem bens e serviços.
Historicamente, o governo do apartheid utilizou mão de obra migrante de várias partes da África para manter salários baixos nas minas de ouro e enfraquecer sindicatos.
Atualmente, cerca de um terço da população está desempregada, uma das taxas mais altas do mundo.
Por algumas métricas, a desigualdade no país é a maior do planeta.
Isso alimenta uma insatisfação que é facilmente direcionada contra os migrantes.
Políticos também costumam explorar esse sentimento em períodos eleitorais.
O governo afirma condenar a violência contra imigrantes, mas líderes sul-africanos têm sido criticados por outros países africanos e por organizações da sociedade civil por não conseguirem conter esses ataques.