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“ O mais Bonito”

A música do primeiro beijo ainda sussurra em mim as delícias que a vida nos oferece, quando nada esperamos.

Por: Gabriel Chalita
27/09/2026 às 09h38
“ O mais Bonito”

Ele olhou para mim. O mais bonito. Eu era tão amedrontada. As comparações com a minha irmã causavam dor. Ela, de fato, era de uma beleza única. 

Minha mãe, desapercebida das palavras sem o cuidado necessário, confirmou, mais de uma vez, que, embora fosse ela a mais bonita, eu tinha também qualidades. 

Havia um luto constante em mim. Mudo. Sem desejos de revelação. 
Evidentemente, eu amava minha irmã. Mas, mais de uma vez, me senti a habitante mais sozinha do mundo. 

Foi, então, que ele olhou para mim. Minha irmã havia ido ao banheiro, e eu estava na mesa. Esperando algum acontecimento. Alguma música que fosse. Algum convite. Algum encontro. E foi assim que ele encontrou os meus olhos. E o seu perfume se aproximou. 

Em uma fração de segundos, enciclopédias de possibilidades diziam barulhos na minha mente. Ele pode ter olhado por pena. Ele pode ter olhado por saber de quem eu sou irmã. Ele pode ter olhado por distração. Ele pode ter olhado para perto de onde eu estava e não para mim. Era melhor não regar esperanças tão tímidas. Sementes tão enterradas em mim, depois de tantos dizeres sobre a minha irmã. 

O olhar prosseguia. E o sorriso. E os passos que o traziam até mim. E o futuro inteiro em um instante que parecia inventado por algum anjo que percebeu o meu sentimento de inferioridade. Quando ele chegou, era inevitável que ele visse nos meus olhos todas as felicidades acumuladas de passados não nascidos. E foi dizendo o meu nome. E eu disse que minha irmã já voltaria. Ele nada disse. E eu não sei por que eu disse da minha irmã. Talvez pela incredulidade. Eu não era merecedora de tanta beleza. Eu nada tinha de especial.
 
Foi assim, entre dúvidas e dúvida, porque a certeza demorou um tanto de tempo para nascer, que dançamos a primeira vez. E ele foi, com delicadeza, tocando cada parte intocada do meu rosto, da minha alma. E eu já era muitas, minutos depois. E ele, então, deu o primeiro de tantos beijos que vieram. 

Em casa, eu ainda desacreditava. Falei parte do que senti para minha irmã. Ela tão acostumada a danças e beijos e olhares e perfumes, fingiu interesse e adormeceu enquanto eu falava. Já eu, não conseguia. Eu voava no acontecido. Queria revisitar o tempo. Instante por instante. Perguntei a mim mesma se a solidão, enfim, teria tirado férias.
 
Aquele sentimento era como uma roupa nova que se veste. E que não se quer tirar nunca mais. Os outros dias não desmentiram os meus sentimentos. E foi ele quem me fez sentir o amor pela primeira vez. Com uma delicadeza que não cabe em texto. 

Ele prosseguiu o mais bonito por todo o tempo em que acordávamos juntos. E juntos nos encaixávamos no emaranhado dos afagos. Sou das que desacreditam que a felicidade tem tempo curto. Infelizmente, nem sempre estamos casadas com a certeza. E uma doença desnecessária o levou, meses antes do nascimento da nossa filha. 

Sofri o mundo inteiro no mundo despedaçado do dia em que enterrei uma parte de mim com o inteiro dele. Voltei do cemitério e jurei renascer. Por minha filha. Por mim. Por querer amanhecer. 

Tive um outro amor, depois dele. E prossigo a vida. Mas aquele olhar, naquele dia, salvou a mim de mim mesma. Eu não era a minha irmã e não tinha que ser. No invisível dos meus medos, ele me viu. E eu flori. 

Não quero atribuir aos outros a salvação que é nossa. Mais de uma vez, eu sabotei e quis saber dele por que eu e não minha irmã? Ele ria e dizia da insensatez da pergunta. Porque era a mim que ele amava. Eram os meus olhos que despertavam nele os desejos do olhar, do viver uma vida inteira juntos. E foi. Pelo tempo que foi possível viver juntos. E prossegue sendo. Quando penso nele. Penso nele sempre. 

O meu segundo filho, já com o marido que hoje tenho, tem o seu nome. Meu marido não se importou. Tem a segurança necessária para não temer quem já não está mais aqui. Embora esteja. De um jeito bonito. 

Minha irmã prossegue na busca. Dias atrás, ela me disse do quanto a vida me foi generosa. E foi. E com ela, também. Embora ela não reconheça. Desacredita ela de qualquer homem, depois das quedas que sofreu.

A música do primeiro beijo ainda sussurra em mim as delícias que a vida nos oferece, quando nada esperamos. Espero prosseguir assim. Sentindo perfumes e agradecendo. Talvez por isso goste tanto de amanhecer com os amanheceres.

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GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
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