
João Paulo II disse, em 1997: "Se Deus é brasileiro, o papa é carioca." Francisco repetiu em 2013, rindo, no avião que o trazia ao Rio: "Vocês já têm um Deus brasileiro, queriam um papa brasileiro também?"
Retórica de salão. Afago de quem domina como ninguém o marketing de batina.
E o mundo? Nem piscou. O Vaticano não soltou nota. A Polônia não convocou o embaixador. A Argentina, que tinha motivo, sorriu amarelo: ficou com o papa, e nós, com Deus. Ninguém declarou guerra santa. Deus continuou sendo de todos, como sempre foi, e ninguém se sentiu roubado.
Lá fora, piada de papa é piada. Aqui, vira lei.
O brasileiro, vaidoso como de costume, tomou a brincadeira ao pé da letra. E é aí que a coisa descamba, porque quem leva tudo ao pé da letra acaba levando tudo à guerra. A semana passada que o diga.
Uma comentarista de televisão falou de evangélicos que estariam querendo tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira. O tal projeto era de 2007 e estava arquivado desde 2008. A emissora pediu desculpas de madrugada. Tarde demais: a internet já tinha afiado as espadas.
Daí em diante, foi um jogral. Um humorista decidiu que a culpa era da "família miliciana". Um ministro mandou apagar. Outro ministro, do mesmo Supremo, mandou desapagar. O humorista republicou. Até a CNBB entrou na cruzada.
No Brasil, até a padroeira precisa de liminar.