
A ciência produzida por estudantes da rede pública estadual de Sergipe mais uma vez ultrapassou as fronteiras do Brasil e conquistou reconhecimento internacional. Único colégio público brasileiro a participar da ExpoAurora de Luque 2026, o Colégio Estadual José Inácio de Farias, de Monte Alegre de Sergipe, conquistou o primeiro lugar em duas categorias do evento, realizado em Luque, no Paraguai, com projetos voltados à sustentabilidade e à estimulação cognitiva de pessoas idosas. A delegação também participou da Ruta Científica Tecnológica y Artes Internacionales Escolar, que reuniu representantes de nove países da América Central e da América do Sul.
Os trabalhos foram desenvolvidos sob orientação dos professores Adnoã Gomes da Cruz, de Geografia, e Cícero Clácio dos Santos, de Ciências e Matemática. No projeto BioChar, a estudante Mirely Borges Andrade conquistou o primeiro lugar na ExpoAurora. Já o projeto Mentes Vivas, desenvolvido pelas estudantes Clarice Souza Santos, Mariana Cardoso Santana e Witila Oliveira dos Santos, também alcançou a primeira colocação.
Além dos prêmios, a participação proporcionou aos estudantes uma experiência de intercâmbio científico e cultural. O contato com jovens e pesquisadores de diferentes países também possibilitou a apresentação de pesquisas desenvolvidas a partir de questões observadas em sua própria realidade.
Professora de Geografia, coordenadora pedagógica e pesquisadora da escola, Adnoã Gomes da Cruz acompanhou os grupos de estudantes envolvidos nas pesquisas. Ela destaca o impacto da experiência internacional na formação dos jovens. “Mais do que apresentar pesquisas, vivenciamos momentos de aprendizagem, intercâmbio cultural e troca de conhecimento com estudantes e pesquisadores de nove países. Tivemos a honra de ser premiados em primeiro lugar nas nossas categorias, entre 450 projetos apresentados na feira”, relatou.
Ciência
Desenvolvido a partir de uma necessidade observada no semiárido sergipano, o projeto BioChar pesquisa o aproveitamento de papel para a produção de biocarvão, utilizado como condicionador do solo. A proposta é aumentar a capacidade de retenção de água e potencializar a ação de adubos, contribuindo para a produção agrícola em uma região marcada pela escassez hídrica e pelo empobrecimento do solo.
Segundo o professor Cícero Clácio dos Santos, a pesquisa nasceu da preocupação com os efeitos da erosão e do desmatamento sobre o solo do semiárido. “A gente pensou em uma solução para esse problema da nossa região. O BioChar vem repor essa nutrição ao solo, fazendo com que ele volte a ter uma sobrevida na produção agrícola”, disse.
Na escola, o biocarvão foi testado em conjunto com adubo produzido pelos próprios estudantes a partir de chorume. Os resultados observados apontaram melhoria na retenção de água e no aproveitamento do adubo pelas plantas.
O projeto contou com apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec-SE) para seu desenvolvimento e com recursos do Programa de Transferência de Recursos Financeiros Diretamente às Escolas Públicas Estaduais (Profin – Projetos) para a participação na feira internacional.
Jogos
O projeto Mentes Vivas surgiu da observação sobre a importância de estimular a atividade cognitiva de pessoas idosas. Desenvolvido há cerca de um ano, o trabalho utiliza jogos e atividades com materiais físicos como estratégia para estimular a memória, a aprendizagem e a interação dos participantes.
Os experimentos foram realizados com aproximadamente 25 estudantes de duas turmas da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (Ejai) de uma escola municipal. A proposta também resgata jogos e memórias da infância dos participantes, valorizando aspectos culturais e experiências pessoais. “O Mentes Vivas é isso: manter a mente viva, manter as lembranças, a memória cultural, a lembrança da infância, os jogos de infância”, detalhou o professor Cícero.
O projeto foi desenvolvido com recursos do Profin – Projetos, inclusive para a participação dos estudantes no evento internacional.
Iniciação científica
Para o professor Cícero, levar a pesquisa científica para os anos iniciais da formação escolar contribui para tornar a aprendizagem mais significativa. Na escola, os estudantes são estimulados a transformar conteúdos trabalhados em sala de aula em projetos práticos, apresentados posteriormente em uma feira científica própria da instituição. “A ciência na prática recupera a vontade de aprender do aluno. Quando ele começa a se envolver com os projetos científicos, muda totalmente de atitude. Ele começa a aprender e a usar o conhecimento na prática”, afirmou.
Segundo o professor, a estratégia é especialmente significativa para estudantes que vivem no campo e podem relacionar diretamente o conhecimento produzido na escola às atividades de seu cotidiano. “Quando a gente pega um aluno que trabalha e vive no campo e mostra que ele pode aplicar o projeto na lavoura e ver o resultado, ele se torna um aprendiz melhor e um multiplicador da ação”, destacou.
Para a professora Adnoã Gomes da Cruz, a conquista reforça a importância de criar oportunidades para que os estudantes desenvolvam seus projetos e ampliem seus horizontes. “Ver nossos alunos representando Sergipe, compartilhando suas ideias e ampliando seus horizontes de pesquisa reforça a importância de investir na ciência, na educação e nas oportunidades que permitem aos nossos alunos sonhar e ir cada vez mais longe”, afirmou.
Para o professor Cícero, a experiência teve impacto também na relação dos estudantes com a escola e com o conhecimento. O contato com outros jovens e o reconhecimento internacional dos projetos despertaram nos alunos o desejo de continuar desenvolvendo pesquisas no Ensino Médio.
Conhecimento
A estudante Mirely Borges Andrade, integrante do BioChar, destaca a importância da conquista e da oportunidade de representar a escola fora do país. “Fiquei muito feliz com essa conquista, porque foi uma experiência muito importante para mim. Aprendi muitas coisas, conheci pessoas novas e adquiri muitos conhecimentos durante todo esse processo. Foi uma honra poder representar minha escola e levar o nosso projeto tão longe. É uma experiência que vou guardar com muito carinho”, afirmou.
Para Witila Oliveira dos Santos, integrante do Mentes Vivas, a viagem também representou uma oportunidade de aprendizado para além da pesquisa. “Minha experiência no Paraguai foi uma das melhores possíveis. Aprendi coisas novas, tive a oportunidade de estudar pessoalmente um novo idioma, fiz novas amizades e estou guardando o conhecimento que adquiri lá”, contou.
A estudante ressalta ainda a importância de possibilitar a participação de jovens sergipanos em eventos científicos internacionais. “Quando um aluno desenvolve um projeto e consegue apresentá-lo internacionalmente, ele tem a oportunidade de apresentar sua escola, seu município e seu estado, além de entrar em contato com outros estudantes e pesquisadores de lugares diferentes”, destacou.
As conquistas no Paraguai ampliam as possibilidades de participação dos estudantes em eventos científicos internacionais. Com os credenciamentos obtidos, o projeto BioChar seguirá para uma feira em Dubai, enquanto o projeto Mentes Vivas terá a oportunidade de apresentar sua pesquisa em Houston, nos Estados Unidos, em 2027.










