
Era uma tarde ensolarada e eu estava no parque. Não sabia o seu nome, então, dei a ela o nome de Maria Tereza. Maria Tereza foi uma mulher que eu amei há muito tempo.
A mulher no parque lembrava a mulher que eu amei. Até porque o tempo do amar parecia ter terminado há algum tempo. Pelo menos para mim.
Maria Tereza, não a mulher que amei, mas a mulher do parque, tinha os cabelos descuidados como quem não dá muita importância. Eu não ligava se Maria Tereza dava ou não importância para mim. Ou talvez ligasse. Não sei. Eu sei que a amava. E sei que nunca falei.
Falar que ama a quem se ama era um ato de coragem que eu não tinha. Eu tinha o perfume, o direito do olhar, a imaginação. Maria Tereza era o oceano que banhava os meus pensamentos. Com seus cabelos molhados sem muito arrumar.
Queria conversar com a mulher do parque. Há algo nela de mistério. Além dos cabelos, há outros desalinhos. Ela ri entre pensamentos. Rir entre pensamentos foi o que fiz, desde sempre. Porque pensamento é coisa nossa.
Maria Tereza, a mulher que eu amei, amava um outro. E, depois, um outro. E sempre um outro. Tentei nas entressafras uma aproximação, um revelar. Disse o que o pensamento não dizia por medo do seu dizer. E ela entendeu amizade.
Há algo no sentar na vida e no riso debochado da mulher do parque que me atrai. O seu trocar nervoso do cruzar das pernas. O seu deitar a cabeça no nada para olhar o céu. O seu voltar e observar uma criança que passa. A vida passa. A criança logo não será mais criança.
A Maria Tereza, a mulher que eu amei, já não é a mulher que eu amei. Já nada dela sei. E prefiro não saber. Prefiro guardar o sagrado daquele sentimento, daquele tempo na eternidade da permanência. Da permanência em mim.
A mulher do parque tira um livro da bolsa. Admiro quem carrega um livro. Um livro carrega tanto de vida. A vida carrega tanto de passado. Do pensado e do realizado. O pensado é, também, realizado, do seu jeito.
Olho o jeito de Maria Tereza, a mulher do parque, como se não olhasse, até porque há uma senhora perto que poderia ser para quem eu estou olhando e há uma outra que canta sozinha uma canção.
Há um homem com seu cachorro que se parece com ele. A mulher do parque olha para ele. Eu sei que ela ri da combinação da roupa que veste o cachorro com um lenço que enfeita o
pescoço do homem.
Há, também, um pipoqueiro. Tenho um ímpeto de comprar dois sacos de pipoca, uma para Maria Tereza, outro para mim. E não dizer nada, apenas oferecer. E esperar o seu sorriso.
Acho surpreendente como o milho esquentado do jeito certo dá pipoca. Pipoca parece até flor. Milho não parece nada. A não ser o da espiga.
Maria Tereza, a mulher que eu amei, gostava de comer milho na festa de Santo Antônio. Santo Antônio é o santo que tem fama de ser casamenteiro. Pedi para ele. Mas acho que até santo espera uma atitude de quem quer ser ajudado.
O dia ensolarado não é de um dia quente. Prefiro assim. A quentura só é boa para o milho ser pipoca. Por algum tempo. Se não, vira queimado. Vira nada.
Se eu tivesse a Maria Tereza do passado no passado, ela ainda seria a Maria Tereza do cabelo molhado que eu amei desde a primeira vez?
Maria Tereza se levanta para ir embora. A mulher que canta canta Piaf. Gosto dessa música. Tão triste e tão bonita. Há um casal de velhos se aproximando. De mãos dadas. Será que ainda se amam como quando tudo começou?
Maria Tereza sorri para mim antes de ir embora. Então, ela sabia. Um sorriso sempre faz bem.
Se eu tivesse a coragem de começar um dizer. Tenho nada. Tenho é o dizer para dentro. Já me acostumei. Mudar para quê?