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Oração de acordar a beleza

cronica

Redação - Felipe
Por: Redação - Felipe Fonte: Gabriel Chalita
14/07/2026 às 14h53 Atualizada em 16/07/2026 às 10h55
Oração de acordar a beleza
Gabriel Chalita

Senhor, eis um novo. Um novo ano. Um novo dia. Um novo instante. Uma nova vida. 

Uma vida cabe em um instante. Em um instante, cabe o silêncio. Que o meu silêncio gere palavras bonitas, que as minhas palavras emudeçam os barulhos feios do mundo. 

Que o mundo que vejo não seja maior do que o mundo que não vejo. Que as maravilhas da física não ousem desmentir a metafísica. Que o sentir seja uma experiência que não se esgote nos sentidos. 

Que o cajado de Moisés, que foi capaz de fazer jorrar água, me faça saborear o inexplicável. O inexplicável na bondade do ensinamento de Jesus "Amai-vos uns aos outros". Que o amor faça nascer a ética ou as tantas éticas condutoras do bem-viver. A ética da atenção. A ética da compaixão. A ética do cuidado. 

Que a minha liberdade seja compreender a liberdade humana e que minha felicidade se construa a cada dia, de mãos dadas. Que a minha inteligência nada tenha de artificial. Que eu consiga compreender que a vida é uma aventura única que me foi dada de presente para presentear de amor a vida. 

Senhor, que a alegria afaste as névoas para que eu possa experimentar a luz do sol. Que eu seja luz. Que a luz que vejo seja iluminada pela luz que não vejo. Que eu nunca duvide do Sagrado. Inclusive do que mora no meu irmão. 

Que eu não exija perfeições, nem do outro nem de mim mesmo. Que eu veja na incompletude a oração da amizade. A amizade é o encontro do belo com o belo sem nenhum outro interesse. 

Na matemática da amizade, a soma dos belos resulta em bondade. Que eu comunique o amor, Senhor.  Que eu não ouça vozes que me façam pisar no outro para subir. Que eu suba junto, sem pressa e apenas com as pausas necessárias para contemplar a subida. E, se algum dos meus irmãos cair, que eu tenha a gentileza de ir em busca da ovelha que se perdeu, como o Senhor nos ensinou. 

Que eu aprenda primeiro a agradecer para, depois, se necessário, pedir. Que eu vença todos os dias o egoísmo para respirar com mais leveza e, com mais leveza, fazer poesia. 

A poesia nasce da atenção ao outro. Do outro que vejo. Do outro que silencio para ouvir falar. Do outro que me esforço para elevar. 

Senhor, que eu tenha a sabedoria para compreender o tempo da busca e o tempo da espera. E que, em ambos os tempos, eu sinta a harmonia entre o instante e a eternidade. 

E que, em todos os tempos, eu ofereça a generosidade. A generosidade do que eu sou e do que eu sei. O que eu sei só tem sentido se for capaz de ajudar o mundo a encontrar sentido. Que eu não me preocupe com o para onde vou. Mas com a boa companhia que posso ser para o irmão que vai comigo. 

Que essa seja a oração do acordar, do acordar a beleza. A beleza do mundo belo. Tantas vezes, por culpa nossa, adormecida.  Que eu faça a minha parte para semear esperanças. E que, semeando, eu amplie os meus afetos para que os meus irmãos possam florescer vida na vida. 

E, quando eu falhar, e eu vou falhar, que eu seja capaz de pedir perdão para que eu também seja capaz de perdoar. Ao outro. A mim mesmo. Que eu olhe para a linda natureza e sinta a Sua presença. E agradeça. É beleza demais para nascer sem intenção. 

Que eu ame os mistérios que me fazem pensar na intenção do Artista. Na sua intenção, Senhor. E que eu ame a música e as outras formas de arte. Que eu não faça a viagem pesado por desejos de coisas e por apegos do que não me pertence. Que eu lembre de como eu vim ao mundo e de como eu deixarei o mundo. 

Que eu valorize o lugar onde vivo, como nascimento e escolha,  mas que eu viva como  alma do mundo inteiro. Uma alma que compreenda que só há beleza na bondade. Uma alma que ore e que trabalhe para que o novo seja a consciência de que a beleza nunca deixou de nascer. Só precisa ser acordada. Dentro de nós. 

Amém. 

 "O céu de Bibi Ferreira" é o título de minha crônica publicada,  neste domingo,  em O Dia:

O céu de Bibi Ferreira

(Gabriel Chalita)

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GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
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