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“A ardência da paixão”

é o título de minha crônica publicada, neste domingo, em O Dia:

Redação - Felipe
Por: Redação - Felipe Fonte: Própria
14/07/2026 às 15h15 Atualizada em 16/07/2026 às 10h51
“A ardência da paixão”
Gabriel Chalita

A ardência da paixão

É uma dor incontida. Um atravessado de informações que perfuram a alma e que barulham os sentidos ininterruptamente. 

Eu queria apenas o silêncio. E alguma leitura de um poema leve. E um sono sem imagens. E um abrir as janelas sem a lembrança que desafia qualquer outra lembrança. 

Penso com pensamentos possuidores de algum alívio. Há outros no mundo. Há outros mundos.

Há o tempo arrumador dos sobressaltos. Penso em teorias. Sei que sou um ser biológico e um ser simbólico. O biológico é animal. O simbólico é o que quer se imortalizar. Ouço música e me calo. A arte é uma imortalidade.

Converso com Deus. Digo a ele que sou pequeno demais e que só me faço grande Nele. E sinto paz. Depois, vem a tormenta novamente. Saio em busca de mim. E encontro a imagem da paixão, que arde. 

Pensamentos outros vou buscando para o alívio. Digo a mim que sofro, hoje, as ausências da infância. Nem sei. Digo mais. Digo que sofro, hoje, por não dar conta do meu desamparo. O mundo é tarefa de valentes. Eu sou um nada. É o que sinto. Depois da troca. Depois da impossibilidade de prosseguir.

Projetei no meu amor um ser quase divino. Um suspiro idílico. Uma perfeição escrita em poemas. A prosa foi outra. Somos humanos. Um parte luz e outra, sombra. Uma parte voa, comunga com o universo, expande. E outra rasteja,  suplica e, um dia, há de alimentar os vermes. 

Somos vida e morte. 

Leio nos tratados de antigamente e nas dores das pessoas que vivem o meu tempo o mesmo vazio. Somos criação nossa. E nem sempre nos aguentamos. Viver comigo tem sido uma promessa de reviver. Ou de desviver. 

Se eu pudesse apagar o que me apaga. Se eu pudesse não ter vivido o tempo da entrega. Se eu pudesse não ter conhecido. 

Não posso. Sou ferida hoje. Já fui outras vezes. Amanhã serei cicatriz. E contemplarei os traços da minha alma, vitorioso. Por não ter trancado as portas. Por ter aceitado, mais uma vez, ceder ao encanto. 

A vida é encanto. Ou isso ou nos entregamos ao medo da vida. E ao medo da morte. Se o meu eu simbólico minorar o meu eu biológico, incorro em erro. O meu eu simbólico tem fome do eterno, o meu eu biológico envelhece. O meu eu biológico tem as necessidades de todos os animais. Inclusive, dos despejos orgânicos. O meu eu simbólico idealiza futuros intermináveis e constrói memórias do passado. E ora para fazer parte da oração universal dos que conhecem a beleza do sorriso. 

Sorriso? Não hoje. Hoje, a paixão arde no meu corpo. No corpo que se acende de desejos. Que lembra do toque, do êxtase, do gozo, da entrega. Que recorre aos dizeres de eternidade. Eternidade é tema do simbólico. Como a expansão da alma em busca do paraíso. E os seres se confundem. O físico jura o que vai além. O físico não vai além. 

A beleza do instante morre no instante. No físico. Permanece o simbólico. Sei de saber que as projeções não nos realizam. Que o outro é o outro e não a ideia que criei de completude. De almas que vagam e que se encontram no luar certo. E que se unirão para sempre. Sei de saber, não de sentir. 

O que sinto é vulcão, é larva que queima, é a dor do mundo inteiro em mim. Ouço alguma lucidez da minha alma que celebra o sentir. E que balbucia alguma paciência. Recosto nas forças que me restam e tento ouvir. 

Um dia, o dia de hoje será lembrança. E, talvez, eu ria e até repreenda a mim mesmo pela desmedida. Pelo desassossego de não amanhecer com os amanheceres e de desperdiçar os prazeres simples que alimentam o animal e o simbólico. 

A água que tomo é a mesma que me lembra que a vida é rio que não para... 

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GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
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