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“As viagens de Carina”

é o título de minha crônica publicada, neste domingo, em O Dia:

Redação - Felipe
Por: Redação - Felipe Fonte: Própria
14/07/2026 às 15h28 Atualizada em 16/07/2026 às 10h49
“As viagens de Carina”
Gabriel Chalita

As viagens de Carina

Fui para o sítio de uma amiga nos descansos da Serra da Mantiqueira. Era um dia bom para amar. Um dia bom para tomar água.

A água que desce da fonte é

alimentadora de significados.  Tanta pureza no nascer. Depois de tempos de percursos, a água pura se envolve com um rio que traz outros elementos. E a beleza dos inícios se perde no poluído. 

Carina é uma senhora que mora perto do sítio e que cultiva horta e pomar e, também, conversas. Minha amiga disse que eu haveria de gostar da prosa. Ela estava em conversas com ninguém. Silenciou quando nos viu. E prosseguiu:"Estão crescendo bonitas, não acham?".

Olhei para a horta, tão verdejante. As laranjas ao lado também, o sabor da frescura do amanhecer. Minha amiga nos apresentou. Ela se disse honrada. Sempre diz isso. Qualquer encontro é uma honra para ela. Afinal, são vidas que se olham, vidas que falam, vidas que escutam, vidas que devem beber a água limpa do amor. 

Ela falou do dia lindo. Eu disse que o triste era a guerra. Ela concordou dizendo que toda guerra é triste. Percebi que ela não sabia muito da guerra, das guerras. 

"Tão longe". Eu disse que, embora fosse longe, eram humanos, irmãos nossos morrendo. Ela concordou repetindo: "Irmãos nossos". 

Minha amiga falou das viagens canceladas. Sua irmã iria para o outro lado do mundo e faria uma escala onde agora, por causa da guerra, era lugar perigoso. "Viajo por aqui mesmo", foi o que ela disse. Quis saber onde. Ela não titubeou. "Dentro de mim". E continuou: "Dá menos trabalho". Eu brinquei :"Gente dá trabalho em qualquer lugar, gente é que faz a guerra". Ela não retrucou, mas prosseguiu na poesia. "Gente é pedaço de Deus, de um Deus inteiro". E silenciou. E prosseguiu. "De um Deus que fez a gente para completar a beleza que ele criou". E se sentou em um banco, embaixo de uma árvore que fazia sombra no meio daquele dia bom para amar, bom para tomar água.

Eu quis saber se ela era muito religiosa.  Ela devolveu a pergunta:"E por que não?". Uma luz saía dos seus olhos. Talvez fosse o sol atravessando as folhas da árvore e apresentando de forma graciosa aquela mulher. Eu disse que gostava do seu nome. Ela disse que também gostava. Eu perguntei se ela sabia o significado. Ela disse que sim. Que a mãe gostava de dizer. Que significa "cara", "querida", "amada". Eu emendei. "E significa 'pura', também. Como a água da nascente".

Minha amiga disse da política. Tempos tão difíceis. Carina disse que acompanhava pouco. Que usava o tempo para a terra. E para os vizinhos. Minha amiga disse que ela deveria se informar mais, que era importante. Ela novamente não retrucou e repetiu "Importante", embora não parecesse se importar. 

A casa de Carina era simples. Fomos com ela tomar um pouco de café. Um vizinho bateu palmas e pediu um pouco de arroz emprestado. Mais tarde, ele iria para a venda e traria para ela.Minha amiga comprou alguns legumes. E ainda tivemos tempo de pegar laranjas do pé. Que sabor!Ela nos convidou para um sarau de poesia em frente à Igrejinha, no entardecer. Disse do Felipe que tocava um violão de dar gosto. 

Uma paz tão grande me invadiu. Que sabor de dia. Nos interiores, há tanto de interior. Suspendi as minhas preocupações com o resto do mundo e fui para o sarau com a minha amiga. Carina cheirava um cheiro de banho. Lembrei do cheiro das senhoras da minha casa que já partiram. 

Um cheiro de sabonete, de talco talvez, de um perfume leve. Tive saudade das conversas das minhas tias na minha infância. 

Carina tem um celular, mas que usa nunca. Gosta mais das conversas. Com Deus. Com os vizinhos. Com as plantas. Como é bom respirar um outro tempo. Um tempo em que o tempo é descansado. Em que deixamos de querer saber tudo para saber o instante. Em que os olhos olham os olhos do outro, apenas.  Em que podemos viajar com Carina, uma mulher de quase 90 anos que entende do que há de mais bonito no mundo: os sentimentos. 

Ela nos abraçou quando a noite começou a dizer que o dia estava se despedindo.Minha amiga e eu voltamos para o sítio. Depois de o galo dizendo o amanhecer, acordei com um cheiro bom nascido na cozinha. Era Amanda que trabalha na casa e que preparava a nossa primeira refeição do dia. Amanda significa "digna de amor". Como Carina. Como todo nome. Também conversei com ela. Também feliz no seu canto do mundo. 

Amanda gosta de cantar. Canta na Igreja e canta músicas de antigamente, ri ela dizendo. 

Depois do almoço, voltamos para a cidade grande, cheios de grandezas. Grandezas verdadeiras. Pausas nos ajudam a viajar. Viajei várias viagens nesses dois dias. Lembrei da minha avó feliz de colher frutas e comer. E de também beber água na bica. Todo dia é dia bom para tomar água. Por que sujamos tanto o mundo? 

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GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
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