Domingo, 04 de Outubro de 2026
18°C 29°C
São Paulo, SP
Publicidade

“A tal liberdade”

o título de minha crônica publicada, neste domingo, em O Dia:

Redação - Felipe
Por: Redação - Felipe Fonte: Própria
14/07/2026 às 15h30 Atualizada em 20/07/2026 às 13h59
“A tal liberdade”
Gabriel Chalita

A tal liberdade

O tempo em que se passou essa história passou faz tempo.​​​​ O tempo não se conta, apenas, no tempo que passa. O tempo também se conta no tempo que não passa. 

O tempo que não passa eterniza o tempo e os seus encantamentos. 

A história não começou encantada. Começou como começam histórias que nos machucam por vermos machucados os outros. Um outro machucado é um mundo inteiro. 

Um outro machucado era um passarinho, no tempo da história que não passa. Porque o tema dessa história que não passa é a tal liberdade. 

Na cidade do interior, no tempo da minha infância, eu vivia em casa dos outros. Comia bolo de fubá na casa de Helena, a professora. Acompanhava as preces, na casa de Adélia, a rezadeira. Nadava no tanque feito piscina, na casa de Marcia, a que tinha vindo da capital cuidar da mãe. Visitava as hortas no quintal de Teodoro. 

Jogava bola no campinho em frente à Igreja. Ia ver a banda na praça dizendo ser domingo. E gostava de estar em casa esperando meu pai voltar da loja e trazer o pão para comermos com a manteiga feita na nossa cidade e tomarmos café e agradecermos viver. E tinha a velha estação de trem em que íamos ver o dia se despedindo, fazendo bonito no brilho do sol nas águas do rio. 

Havia um Lucio, meu amigo, que morava perto do tal rio do pôr do sol, perto de umas árvores em que passarinhos cantavam a vida sem preocupações que não a de cantar, voar, se alimentar e amar. 

Um dia, Lucio me chama para dizer de sua coragem e de sua esperteza. Armou um alçapão. Preparou tudo. E um sabiá, distraído, despido de desconfiança se deixou capturar. O passarinho havia se debatido no início, dizia Lucio: "Agora está quieto". 

Eu não sabia o que dizer. Por que prender o sabiá? Prender um outro jamais será um ato de coragem. Pensei e repensei, naquele tempo cujo tempo permaneceu, no que fazer para o convencimento do meu amigo. Pensei na minha vida de casa, em casa sem gaiolas, sem prisão. 

Eu olhava para o passarinho e me via passarinho. E ouvia o canto dos passarinhos livres tão perto dali. Lucio era bom. Só fez o que fez porque ouviu um outro que fez. E quis saber se conseguia. 

Do alto dos meus seis ou sete anos, resolvi tentar convencer. 

"E o pai dele, e a mãe?"

Lucio ficou olhando para minhas palavras. 

"Vai prender também?"

"Será que tem irmãos?"

Lucio nada dizia. Então, eu prosseguia sabendo que as palavras estavam se assentando. 

"Ele parece triste, não acha?"

Lucio resmungou alguma coisa. 

"Não entendi?''

Disse nada ele. Só ficou ouvindo os que cantavam. Tão perto dali. Tão livres. Com os seus. E, então. ele abriu a gaiola. 

"Pode ir com seus pais e seus irmãos", Lucio disse. 

E ele foi. Voou e parou perto dali em uma árvore do quintal. Havia um outro sabiá. Eles se encostaram. Quem era o outro, não sei. Talvez uma namoradinha sabiá. Foi bonito de ver. É bonito de lembrar. 

Quando fui aprender filosofia, aprendi um outro conceito bonito de tempo. O tempo que se conta, quando voamos em direção ao ideal mais alto das nossas vidas. O ideal que nos ensina a tal liberdade.

Lucio, hoje, é médico. Prosseguimos amigos. Tanto tempo depois. E ele nunca se esqueceu do dia em que sentiu o sentir do passarinho. 

O tempo da vida é para o sentir. O sentimento é tempo que para, que estaciona outros tempos, para encantar. Se eu tivesse incentivado Lucio, naquele tempo, a aprisionar passarinhos, talvez, no tempo de hoje, ele fosse um aprisionador. Talvez até sofresse por ser assim. Não sei. Sei que ele é médico que sente o sentir do outro, que acalma as vidas, quando as vozes se esquecem do canto. Que prepara os cantos para que a vida possa a voltar a sentir encantamentos. 

No tempo de hoje, tento, como aprendiz de canto, não prender e nem deixar que me prendam. No tempo de hoje, tento contemplar o tempo, inclusive, o de ontem, quando o tempo ensinou a ensinar ao tempo o tempo do permanecer. O que nos faz voar em direção ao ideal, a tal liberdade.

E nós, diferentes dos passarinhos, sabemos que tudo passa e que, um dia, passaremos... então, aproveitemos o tempo que temos para permanecer. 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
Ver notícias
São Paulo, SP
24°
Chuva
Mín. 18° Máx. 29°
24° Sensação
5.36 km/h Vento
71% Umidade
100% (8.18mm) Chance chuva
05h43 Nascer do sol
18h06 Pôr do sol
Segunda
21° 17°
Terça
24° 17°
Quarta
25° 18°
Quinta
31° 18°
Sexta
30° 20°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,22 +0,10%
Euro
R$ 5,87 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 472,629,12 +1,08%
Ibovespa
192,114,55 pts 2.63%
Publicidade
Publicidade
Enquete
...
...
Publicidade