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“A coragem de desistir”

“ é o título de minha crônica publicada, neste domingo, em O Dia:

Redação - Felipe
Por: Redação - Felipe Fonte: Própria
15/07/2026 às 10h25 Atualizada em 16/07/2026 às 10h47
“A coragem de desistir”
Gabriel Chalita

A coragem de desistir

(Gabriel Chalita)

O dia trazia os seus raios de luz. Era uma manhã de domingo. David conversava comigo sobre conversas que insistem na não desistência. 

"É o que nos ensinam, a não desistir nunca; é o que nos ensinam, que não podemos abrir mão dos nossos sonhos."

Entre um suco com seu verde de esperança e alguns pequenos cumprimentos aos que passavam e nos diziam do bonito do dia, eu vivia aqueles dizeres. E concordava. 

O que são sonhos? Olhares para além do hoje? Tijolos sobre tijolos na construção que nos dê sentido amanhã? Que nos dê aconchego?

Aconchegados, prosseguimos a conversa. Há uma diferença entre o caminhar o caminho da persistência e o apego à teimosia. 

Um amigo se aproximou, enquanto o suco ainda nos nutria naquela manhã. Reclamou dos sapatos, apertados demais. Os pés eram de dor. Por que alguém usa os sapatos errados? Por que não abandonar vestimentas que já não nos vestem? Por medo, talvez. 

Então, desistir é um ato de coragem. Muitas vezes de mais coragem ainda do que persistir. Os sapatos prosseguirão doendo, se com eles prosseguirmos. Os sonhos já não serão sonhos, mas implicâncias acumuladoras de desnecessidades. 

Falamos da luz do dia. Pensei na lucidez. Na lucidez de saber que é hora de deixar ir. Que os quereres podem deixar de querer. 

Disse o nosso amigo de um amor que se foi. E de sua espera sem fim. Não se espera um pássaro que voou. E nem se tenta a gaiola. Engaiolados ficamos, quando prosseguimos no sofrimento de guardar o desajeitado sentimento do aguardar. 

As águas correm. Correm os acontecimentos. Corre o viver. Alguns percorrem teimosamente os sonhos dos outros. "Não sou o médico que minha mãe sonhava", digo eu a David. "Ela teve que abandonar a faculdade de medicina e sonhou que os filhos prosseguissem. Filhos não são prosseguidores dos sonhos dos pais. 

O amigo que chegou fala do sofrimento que sofre em um cargo que, se ele aguentar, pode dar a ele um outro cargo, ainda melhor, com mais poder. Digo a ele do poder de tirar os sapatos e deixar os pés terem os espaços que precisam. Espaços nos fazem bem.

Penso na felicidade dos alívios. No deixar as roupas que já não nos servem para trás. No descansar depois de cansaços que não produzem felicidades. Já agradeci e parti, mais de uma vez, de histórias de trabalho, de histórias de amor. Ou há luz nas manhãs dos dias ou construímos a casa na posição errada. Colecionadores de coleções erradas, acumulamos o que deveríamos abandonar. Há outras casas. Há outros tijolos esperando para erguer acolhimentos. 

Tenho medo das sombras, da ausência dos amanheceres. Ao acordar, eu preciso saber que um dia acordou. Se me falta amanhecer, é preciso ter a coragem de desistir do que me faz sombras e partir em busca de luz. 

Terminamos o suco. A prosa. Os instantes em que a amizade nos ajuda a dar liga às construções necessárias para as nossas habitações. Habitamos um espaço e um tempo preciosos. Foi bonito de ver o nosso amigo descalço, aliviado por desistir do que doía. Eu ainda sugeri:"Deixe o sapato de lado para não correr o risco de vestir novamente o que te desveste a liberdade".

Era uma manhã de domingo e sorrimos as aprendizagens daquela luz tão explicadora da razão pela qual nascemos. 

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GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
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