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“O acordar das ruas”

o título de minha crônica publicada, neste domingo, em O Dia:

Redação - Felipe
Por: Redação - Felipe Fonte: Própria
15/07/2026 às 10h31 Atualizada em 16/07/2026 às 10h46
“O acordar das ruas”
Gabriel Chalita

O acordar das ruas

Abro as janelas e vejo o cemitério e fico feliz. 

Demorei para vir morar aqui. Alguns dizeres desaconselhavam. Não sei por que o medo dos que morreram. Os que morreram nenhum mal nos podem fazer. Nos fazem mal os vivos. E como fazem. 

No caminho que faço logo cedo, no acordar das ruas, desço até o centro da cidade, onde trabalho. Na direção contrária, vejo os que sobem e que buscam outros destinos. O subir e o descer. O ligar e o desligar. O dormir e o acordar. 

No cemitério, há uma paz que não encontro no centro da cidade. Há árvores e há pássaros que cantam nelas canções de saudade. É o que sinto. E sentir é o verbo mais humano que há. Sinto falta de muita gente. E sinto falta de sentir nas gentes o sentir. Os horrores dos violentos. Do que causam no corpo e na alma. E não sentem. Mortos em vida é o que são. Esses fazem mal. Os mortos já mortos, não. 

Quando posso, acompanho um desfecho. Na cidade pequena, nos conhecemos, então, não há estranhamento algum em seguir algum enterro e jogar um punhado de terra no corpo que na terra descansa o que na terra cansou. O viver cansado é um desviver os amanheceres. O dia novo é um convite a um novo sentir. É o que sinto. 

Sinto que gosto da intimidade e do distanciamento. Preciso dos dois. Há dias em que é bonito ver uma revoada de pássaros e que os barulhos deles todos nos fazem orquestra. Há outros em que é melhor apenas um. Um canto basta. Um canto solitário. Um canto distante de outros cantos. 

Leio as lápides dos túmulos e imagino as vidas que viveram antes da minha. A saudade é um sentimento bonito demais para ser temido. O temor da morte desarruma a vida. É desnecessário. 

Dona Angela, minha vizinha, diz que o marido não acredita em nada. E que, por isso, não deveria ter medo do morrer. Com o nada acaba todo o sofrer. Já ela, que acredita que nada acaba, não tem por que sofrer. Só de saudade. Do tempo em que a dor doía o corpo e que o sentir era uma única esperança, o de um amanhecer sem dor. 

Seu João é outro vizinho, esse sofreu o encontro da mulher com um outro. Em cidade pequena, a cidade toda parou para dizer. Seu João decretou a falência da própria vida no dia do desencontro. 

O amor chegou novamente na casa do Seu João, tempos depois. E, tempos depois, morreu a mulher que o deixou. Eu fui para saber se ele iria ao sepultamento. A mulher já estava sepultada há tempos nele. 

À noite, a cidade dorme. À noite, as ruas fazem do silêncio um descanso. Poucos passos passeiam. Mesmo em dias de luar. Não sou da noite. Gosto do gosto do amanhecer. Há galos perto do cemitério. E há sons de cachorros que latem depois do canto dos galos.

Dias desses, vi um galo cantando e um cão latindo. Um em frente ao outro. Fiquei imaginando o que conversavam. O cão veio em minha direção para dizer sentimentos. Acariciei sua cabeça. Ele, então, deitou na terra a vontade de que eu prosseguisse. Cocei sua barriga e expliquei que precisava trabalhar. Ele me acompanhou até um pedaço da descida. Depois, voltou. Talvez tivesse combinado alguma coisa com o galo. 

Prefiro o sol à chuva. Prefiro que a chuva chova de noite. O seu barulho é descansador. Prefiro o outono às outras estações. Porque gosto dos ventos ventando as árvores do cemitério. Gosto da luz do outono. E do meio-termo entre o verão que já foi e o inverno que um dia será. 

Não me esqueci da primavera. É que ela é sempre muito elogiada. Na minha cidade, é o tempo dos florescimentos dos Ipês. A rua que liga o centro ao cemitério é cheia deles. Ipês amarelos. Há também jacarandás. E quaresmeiras. Algumas quaresmas nascem no verão e desmancham no outono, onde a Páscoa convida à alegria. 

O acordar as ruas é um convite à alegria. Aos sábados, quando não trabalho, vou tomar banho de cachoeira. E agradeço. 

Meu primo Geraldo, que mora na cidade grande, insiste comigo que eu mude para lá. Mudo nada. Prefiro ficar por aqui. Perto dos silêncios e dos encontros. Perto de mim. E do cemitério. E das histórias que já silenciaram na paz. 

Demorei para vir morar aqui. O tempo tem seus caprichos. Caprichei nas flores que colhi para Aparecida. Sobre ela tenho uma certa timidez em dizer. Só tenho a dizer que com ela o acordar das ruas seria mais perfumado. 

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GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
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