
O sagrado, o profano e o arquiteto
Sou arquiteto de formação. Sempre gostei das linhas decididas que acalmam as indecisões. Projeto como abraço. Para acolher os sonhos e construir espaços que descansem a vida das suas rudezas.
Rude é o que não sou. Sou um escutador paciente nas impaciências do mundo. Se poder eu tivesse, devolveria a gentileza aos encontros. Convidaria as palavras de amor a desenharem comigo novas arquiteturas nas relações humanas. Nas relações humanas, sou um aprendiz. Por isso, escuto.
Escutei o que me contratou para o projeto da sua casa. Ele e sua mãe. Enquanto eu dizia de cada traço traçado para dar vida ao seu pedido, ela escutava. Ora sorria, ora franzia a testa. O filho olhava para mim e olhava para a mãe. Como um pássaro livre e um pássaro preso aos pensamentos que pensam pelos dois.
Depois de terminada a explicação, ela pediu para dizer;
"O senhor não pode colocar o quarto das rezas ao lado do quarto em que ele faz as suas coisas de homem".
O filho havia me pedido um quarto com um oratório e com conforto suficiente para as rezas. Eu fiz. E o quarto ficava ao lado do quarto de dormir. Uma suíte com tudo o que ele sugeriu ser útil para os seus descansos.
Eu disse que poderia mudar os lugares. Que havia um terceiro quarto onde eu havia projetado o seu escritório e um espaço, se necessário, para receber hóspedes.
A mãe foi incisiva: "Não se mistura oração com as coisas que os homens fazem".
Eu disse concordando em voz alta: "O sagrado e o profano".
"O meu filho é solteiro. Tem quase quarenta, mas é solteiro. Já deveria ter se casado. Já deveria ter me dado netos".
Eu soltei um 'Pois é', olhando para o filho. O filho dizia nada. Eu disse que mudaria o projeto. E perguntei a ele. Ele disse um murcho "É isso".
Fiquei escarafunchando em mim aqueles dois. Filho único. Ela, viúva. Querendo netos. Ele querendo paz. E querendo agradar a mãe sem desagradar a vida.
Ela foi ao banheiro e ele me disse: "Faça o que ela quer, depois a gente muda". Ela voltou e perguntou se eu era um homem de oração. Eu disse que sim. Perguntou se eu era casado. Eu disse que não. Perguntou a minha idade. Respondi. Disse ela que oraria por mim para que eu encontrasse a mulher certa. Eu agradeci.
Ele e eu nos olhamos com olhar de carinho por aquela mulher e por suas crenças. Eu quis dizer que o sexo é também sagrado. Eu quis dizer que a oração se ora em qualquer lugar. Eu quis dizer que tanto o seu filho quanto eu podemos ser felizes solteiros. Ou casados. Com filhos. Ou sem filhos. E que ela não precisa de netos para viver a vida. Eu disse nada. Apenas sorri.
Cada um tem uma história em que verdades vão sendo acumuladas com os anos. As circunstâncias nos levam a crer ou a descrer. Sou um homem crente na fé. Agradeço a Deus todos os dias pelos dias. E pelo que posso arquitetar nesse mundo. E agradeço, também, ser um pássaro livre. Minha mãe nunca me ofereceu gaiolas, só a fé, só o amor que acorda os dias, e os cômodos, e as pessoas para viver.
Refiz o projeto. A mãe ficou feliz e disse: "Agora só falta casar". Quem sabe?!
"Querer viver" é o título de minha crônica publicada, neste domingo, em O Dia;
Querer viver
Os afetos nos afetam desde sempre. Somos punhados de amores dos ontens. Somos mãos caminhantes que contemplam pausas para fotografias. Somos fotografias de instantes que ficam. Somos os que vão. Vão mundo afora, vão mundo grande, nos tropeçares, nos equilibrares, no amor.
Amo dois irmãos. Tão diferentes os dois. Um é Fernando. Fernando ama Cecília. Vive com ela há algum tempo. Há algum tempo, me diz que quer deixar de dizer amor à Cecília. Eu pergunto o porquê. Ele diz que quer viver outros amores. Que sente que a vida passa e que ele desperdiça outros conheceres. Há mulheres tantas e por que apenas uma? É o que ele diz. Eu desdigo. Digo do bonito do inaugurar e do reinaugurar o amor. Do acalmar as ansiedades, do demitir a procura. Por que buscar se se tem? Ele não discorda mas não concorda. E dá corda ao seu duvidar de que não há outras que possam dar mais do que Cecília.
O outro é João. João ama Maria. E, há pouco, tiveram filhos gêmeos. Francisco e Clara. Achei linda a escolha. Sou padrinho de Francisco. João é mais acalmado que Fernando. É da casa, enquanto o outro prefere a rua. É do dia, enquanto o outro prefere a noite. São diferentes os dois como são diferentes os irmãos e os que também não são irmãos ou são irmãos de humanidade.
Fernando diz ser João muito pacato. João diz que Fernando é do jeito que é. Cecília acompanha Fernando em festas intermináveis. Acompanha, mas não gosta. Não gosta, mas não diz. Fernando diz querer viver uma vida mais intensa. Menos tediosa. Mais aberta ao novo.
João gosta do acordar e do restante do dia. Gosta de dar banho nos filhos. De acompanhar o amamentar. De beijar a mulher. De querer viver a vida que tem.
Eu sou amigo e não julgador. Julgo, porém, um pouco atabalhoado o viver de Fernando. As buscas, como as de Fernando, só nos trazem vazios. Nunca nos preenchem. É de dentro que nos preenchemos.
João e Maria têm suas diferenças. Evidentemente. E quem não tem? Brigam brigas de casal. Limpam juntos sujeiras que incomodam. Mas têm, segundo me disse Maria, um acordo. Não dormem sem resolverem o que incomoda o amor.
Fernando e Cecília também brigam. Um pouco menos, ultimamente, me disse Cecília. Há nela um cansaço, é o que senti. Ela disse que ele nunca está satisfeito. Que ela se desfaz para fazê-lo feliz. O que é um erro, pensei. Ninguém tem que se desfazer.
Sinto que, se Cecília deixar Fernando, ele deixará de querer viver as novidades. Ele a ama mais do que imagina. É pena que imagine que pode estar desperdiçando outras histórias. Ele tem uma história. E não sabe que tem.
Os afetos nos afetam desde sempre. Fernando diz que sempre teve tudo o que quis. O filho mais velho. O neto mais velho. João brinca que nasceu por descuido. Os pais queriam um filho apenas. Brinca que teve que conquistar o amor dos dois. Brinca, mas é o que sente. E trabalhou dentro dele mesmo para sentir diferente.
Longe de mim querer concluir sobre a vida dos outros. Mas os excessos nunca fazem bem. Nem as faltas. Ah, o difícil meio-termo.
Também tenho os meus filhos e faço de tudo para que o que me cabe seja feito com cuidado.
Não sou decididor das suas vidas. Sou apenas braços e abraços. Que constroem e que aliviam os alicerces e os pesos da vida.
Minha filha começou a namorar, há não muito. Ele parece bom. Os inícios são tão bonitos. Não apenas os inícios. Bonitos são os dias em que iniciamos agradecendo o que temos. E não o que falta.
Ah, minha mulher, Amanda, é tudo o que eu sempre sonhei. Ela diz o mesmo de mim, embora reclame do meu excesso de paciência. 'Você é um pouco lento demais, às vezes, meu amor', é o que ela diz.
Paciência, aprendi isso com meu pai que só sabia dizer belezas à minha mãe. E que era lento no tema do não desperdiçar o que os dias nos mostram, nos falam, nos calam.