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“A primeira vez”

o título de minha crônica publicada, neste domingo, em O Dia:

Redação - Felipe
Por: Redação - Felipe Fonte: Própria
15/07/2026 às 10h40 Atualizada em 16/07/2026 às 10h44
“A primeira vez”
Gabriel Chalita

A primeira vez

(Gabriel Chalita)

Foi no primeiro ano do curso de engenharia. Nos vimos. Nos vimos pela primeira vez. E nos vimos no dia seguinte. 

Pela primeira vez. Era o que eu sentia. Ela, de poucos dizeres. Eu querendo sentir o que ela sentia. Havia um homem que a acompanhava até a faculdade. Eu não sabia o que ela sentia. Pelo homem. Por mim. 

Os dias que se seguiram foram sempre pela primeira vez. Foi o que ela me disse depois.  Havia uma promessa entre eles. Entre o pai dela e o dele. Havia um desejo entre nós. Por isso, era sempre pela primeira vez. 

O primeiro beijo demorou algum tempo. E ela chorou. E eu desentendi. Foi em um bosque perto da quadra perto do teatro perto da piscina. No fundo, eu sentia que ela sentia. Ela chorou. O choro levou para longe meus pensamentos. Foi em um junho distante. Quase férias. 

No primeiro beijo, não falamos. Na volta, nos beijamos. E não falamos. Foi como o primeiro beijo. E outros, também. Sempre o primeiro. O choro deixou de estar. Eram outros tempos.

O curso prosseguiu. O da engenharia e o da vida. E o da engenharia da vida. O prometido não lhe dizia nada. Era um arranjo.

Um arranjo de flores ficava sempre na entrada da biblioteca onde os livros descansavam a espera. Ela vivia de esperas. De que algo acontecesse. Na biblioteca, ela disse do prometido e da sua paciência com a espera. Ela disse do sono e do sonho. O que se pode pedir ao sono? O sonho era o fim. Era o desvestir a vida da promessa de outros. Era uma autorização para o desejo. 

Na biblioteca nos falamos pela primeira vez. Entre livros que guardam engrenagens e amor. O amor é uma engrenagem delicada. Na biblioteca, folheamos as nossas almas e revelamos segredos. Era a primeira vez. E nos meses que se seguiram era sempre a primeira vez. 

E, no fim do ano, nos demos um fim para o ano que ia começar. E respiramos felizes. Eu conversaria com a pai dela. Seria o início de tudo o que antes havia sido apenas preparação. 

Sempre é um início do que se preparou antes. Ou não. Há inícios quando estamos despreparados. E no tema do amor são comuns. 

Quando no início do ano nos falamos, a felicidade que eu vi na fala do fim do ano que havia passado já não era a mesma. Aquele junho do primeiro beijo já estava distante uma eternidade. E ela disse que era preciso desvestir de futuro os dias. Nos beijamos. A cada vez, a primeira vez. 

Eu argumentei, lembrei planos e projetos. Desenhei em palavras a casa dos nossos sonhos. 

Ela chorou. E impediu o prosseguimento. Pensei, pensei tanto, pensei que o tempo, antes dela, se contava de outra maneira. E, também, a espera. E, também, o pensamento. 

No junho do ano seguinte ao ano em que tudo era pela primeira vez, ela mudou de faculdade, de cidade, de vida. O tempo demorou para recolher a dor e a surpresa de não sentir com ela o mundo.

Foi meu primeiro amor. Se tivéssemos prosseguido, eu pensaria nela como penso hoje? O que teria sido? Seria sempre a primeira vez? O conquistado é tão forte quanto o desejado?Somos a busca do que nos falta?

Naqueles dias, ela me faltou. A primeira vez que apaguei a luz do quarto com o pensamento nela, pensei a vida inteira com ela. A primeira vez que apaguei a luz do quarto quando a sala de aula estava sem ela, pensei a vida inteira com ela. Porque ela voltaria. Porque ela disse amor. Porque ela disse da promessa do outro e não dela. Porque ela prometeu dizer sempre pela primeira vez o amor. 

Escrevi cartas e cartas para ela. Para aliviar o dizer sem dizer. Um dia, lancei fora. Pena.  Gostaria de ler. Gostaria de ler, hoje, para ler o tempo em que conheci o amor. Pela primeira vez. 

Já vivi outros amores.Já desejei e realizei e já deixei de desejar. Na engenharia dos desejos, é bom desejar. Na engenharia dos desejos, é bom deixar de desejar. É bom quando é a primeira vez. 

O amor faz com que tudo seja a primeira vez. A espera. O beijo. O toque. A palavra. A saudade. 

Quando estava triste ou quando tirava férias da tristeza, era a primeira vez. E, quando ria, também. Na primeira vez, o riso para uma descoberta da vida. E a primeira vez que o riso vira choro é a maior dor do mundo. Depois, a maior dor do mundo dói de novo e é, de novo, a primeira vez. 

A carência. O preenchimento da carência. A carência de novo. E, de novo, a busca. Nunca nadamos na piscina que ficava perto de tanta coisa. É tudo tão distante. 

No dia que amanheceu hoje, é a primeira vez que penso nela. Quanto menos futuro temos, mais passado pensamos. É a primeira vez que penso nisso. Hoje. Aquele junho do início. Aquele junho do fim. Uma vida inteira entre um junho e o outro.

Entre os invernos, nasceram as outras estações, e as outras estações morreram. E, também, o inverno. Na vida longa que vivi, os dias de calor viveram muito. E é, por isso, o riso. E porque rio, sei que ainda estou vivo. Como se fosse tudo pela primeira vez.  

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GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
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