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“A vida de Bento”

é o título de minha crônica publicada, neste domingo,  em O Dia:

Redação
Por: Redação Fonte: Gabriel Chalita
20/07/2026 às 10h41
“A vida de Bento”
Gabriel Chalita

"A vida de Bento" é o título de minha crônica publicada, neste domingo,  em O Dia:

A vida de Bento

(Gabriel Chalita)

O sol estava preguiçoso na manhã daquela segunda-feira em que recebi o telefonema com a notícia da morte de Bento. 

Pronto. Já deixei claro que esse é um dizer sobre a morte. E sobre a vida.

Na semana que antecedeu ao fim, eu estava com ele. Uma música tocava, enquanto apreciávamos um chá de hortelã colhido ali mesmo onde colhemos tantos afetos. Bento gostava dos plantios. Na terra e nas pessoas. Há uma roseira e outras plantas. E há uma horta, também. E há o cuidado que faz com que a vida, onde se olhe em sua casa, seja vida. 

O dia estava frio e ele, entre um aquecer e outro do chá de hortelã, foi separando peças de roupas, toalhas, lençóis, cobertores para amenizar o frio de irmãos seus, de irmãos nossos. 

Bento conhece por nome quem mora nas ruas onde ele mora. Já conseguiu abrir as portas de outras vidas para alguns. Para outros, ainda não, diz ele. É mais complexo do que parece. 

Bento ajuda algumas entidades. Faz isso, há muito, sem alardes. Faz porque acredita que tem que fazer. Que tem que aliviar as dores do mundo.

Fico pensando no seu sorriso ouvindo a música, bebericando o chá, separando as roupas e contando histórias. Fico pensando que nem ele nem eu nem ninguém sabíamos que era, aquela semana, a última semana do seu sorriso. Do seu sorriso como sabemos. O resto é mistério. O tempo de ficarmos é um tempo cuja decisão não é nossa. O futuro que temos, também não sabemos. 

Quando penso na morte, penso na imortalidade, porque tenho fé, mas penso, também, na eternidade, na eternidade dos instantes, porque tenho amor. O instante de separar o que vai agasalhar alguém é um instante eterno. É o sorriso que não nasce de um prazer que se descarta, depois do tédio que o próprio prazer é capaz de proporcionar. 

Prazeres efêmeros fazem parte da vida, mas não são a vida. A vida é o que se eterniza, quando o plantio é o bem. Penso na tristeza da vida dos acumuladores. Dos que acham que levarão o que hoje não dividem. Penso nos avarentos das coisas e dos sentimentos. Nunca estão bem. 

Bento estava bem quando dormiu e não mais acordou. Uma morte bonita, pensei chorando a saudade da sua partida. Uma morte bonita, porque nascida de uma vida bonita. 

A morte nasce da vida. Sem vida, não há morte. E a morte despede a vida da vida que conhecemos. 

No mesmo dia do sol preguiçoso da morte de Bento, separei peças de roupas, toalhas, lençóis, cobertores e fui visitar uma entidade que cuida de quem a vida descuidou. Fiz isso pelo Bento. Fiz isso por mim. Posso eu não estar aqui na próxima semana. Por que desperdiçar a alegria do eternizar o instante? 

Fiquei pensando na música que ouvimos, enquanto ele separava suas roupas. No bolo delicioso que comemos com o chá. Na caneta da sua coleção que ele me deu de presente. 

Escrevo com ela, pensando nele. Memórias bonitas me acompanham. Os dizeres que eu pude dizer em seu aniversário de 90 anos. Eu queria que ele vivesse até os 120. Eu dizia em oração que há tanta maldade no mundo que os bons precisam viver mais. Precisam plantar roseiras e outras plantas e alguma horta que alimentem de esperança a terra. E precisam ouvir música. 

Três dos jovens que saíram das ruas, ajudados por ele, estavam em seu velório. Choramos juntos. A sua filha leu uma carta que ele havia escrito quando descobriu uma doença antes dos 80 anos. Ele achou que estava indo. Não foi. Nem naquele tempo nem agora. 

A carta é uma carta de gratidão pela vida. O seu neto mais velho tem o seu nome. E, desde criança, aprendeu a dividir tudo. Adorava oferecer brinquedos. Eu me lembro disso. Hoje, ele oferece ciência e amor como médico. 

A ciência não resolve a dor da partida. O amor, sim. Com ele, escrevemos a palavra 'saudade' com as tintas do que aprendemos sobre a gratidão. 

Que vida linda, meu amigo Bento. Cuidaremos da sua roseira. E das nossas. Porque uma vida, sem a delicadeza dos perfumes e o perfume da música, não se eterniza.

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GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
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