Domingo, 04 de Outubro de 2026
18°C 29°C
São Paulo, SP
Publicidade

“O belo horizonte do meu pai”

é o título de minha crônica publicada, neste domingo

Redação - Felipe
Por: Redação - Felipe Fonte: Gabriel Chalita
10/08/2026 às 11h08
“O belo horizonte do meu pai”
Gabriel Chalita

"O belo horizonte do meu pai"

(Gabriel Chalita)

Meu pai é José, nome do carpinteiro, pai de Jesus. Nome de tantos pais do Brasil e de outros lugares.

Meu pai é mineiro de Belo Horizonte. Como o santo, o esposo de Maria, meu pai é de Deus. Um homem de Deus. Quando estava por aqui e onde está agora, é o que sinto, crente que sou no sentir.  

Os seus pais vieram do Líbano, como tantos outros pais, buscando um mundo melhor para os seus filhos. Em tempos de guerra, vieram por aqui em busca de paz. Viveram pouco em Belo Horizonte. Viveram a vida em Cachoeira Paulista, uma sagrada cidade entre as serras da Mantiqueira e do Mar. Em Cachoeira Paulista, desde que minha memória é capaz de memorizar, meu pai via o horizonte. O belo horizonte. 

Era bonito de ver o sonhador sonhando. Em uma terra sem nada, ele via o café sendo colhido e o aroma perfumando a vida das pessoas. E, então, comprou a terra e virou plantador de café. Em áreas de silêncio, apenas, e de areia e pedras, viu famílias vivendo e convivendo e fazendo filhos. E construiu vilas e casas. 

Em uma esquina, imaginou pessoas comprando e conversando onde não havia nada e abriu loja e fábrica. Em um lugar sem ninguém, viu romances nascendo e risos rindo e lágrimas, sem medo de demonstrar emoção e fez um cinema, o primeiro da pequena cidade. E construiu casas em um asilo para ajudar. E ajudou a vida inteira. Meu pai compreendeu os horizontes dos outros, porque era homem de escutar. 

Quando eu quis ser escritor, ele viu um futuro de bondades em mim. As palavras criam horizontes nas pessoas. Quando eu quis ser professor, ele sorriu de felicidade. Eu quis outras coisas que desisti. Ele compreendia, inclusive, as desistências. Os horizontes para serem construídos precisam de tempo e de paciência. 

A paciência era uma das virtudes que eu mais admirava em meu pai. Os erros dos outros nem sempre nascem da intenção de errar. É preciso confiar no tempo para os arrumos. 

Eu gostava de estar perto dele na loja, no sítio, nas construções. Eu gostava de ir com ele comprar pão e manteiga. Eu gostava de dizer a ele dos meus medos e de ouvir sorrisos libertadores. A sua voz em forma de oração ainda diz delicadezas em mim: "Calma, meu filho, confie, Deus está com você". 

Minha mãe era mais agitada do que ele. Era bonito de ver o arco de amor desenhando história em suas diferenças. Era bonito de ver como eles se olhavam com gratidão por terem se conhecido em um mundo tão grande. Ela nasceu na Síria. E se conheceram em uma calçada na cidade de Taubaté, no mesmo Vale entre as montanhas da Cachoeira onde nasci. 

Ele foi ver um jogo de futebol. E se não tivesse ido? E se ela não estivesse naquela calçada naquele dia? Os imponderáveis da vida brotam amor. E eu sou fruto desse amor. 

Faz tempo que meu pai foi viver a eternidade. Minha mãe também foi, tempos depois. Eu prossigo por aqui, vivendo com eles em mim. Lembrando lembranças que abrem belos horizontes na minha vida. Parece que vivemos muitas vidas em uma vida, apenas. Uma bela vida. 

Os ontens prosseguem no hoje. E o hoje é possuidor das sementes do amanhã. Da terra que pode ser plantio de café ou de filmes de cinema. Das lojas ou das salas de aula em que o amor é sempre necessário. 

Lembro o primeiro dia em que entrei em uma sala de aula e fui chamado de professor. Lembro o café no fim do dia e da minha empolgação ao dizer aos meus pais que havia encontrado o meu lugar no mundo. Meu pai repetiu com orgulho: "Meu filho, meu menino, é professor". 

Meu pai me viu seminarista, me viu fazendo peças de teatro, me viu vereador, me viu voltando da primeira viagem fora do Brasil para dar palestras e lançar livros. E abraçava o que via. Era bom contar tudo a ele. Até dos medos. 

Um dia, em um dos primeiros lugares em que fui diretor, eu disse a ele da minha dúvida de ficar ou sair. Minha mãe disse que eu deveria ficar. Era muito jovem e recebia muito bem. Ele perguntou se eu estava feliz. Eu disse que, até então, sim, que mais recentemente, não. Então, ele disse: "Você sabe a resposta, filho, a vida é muito curta para desistirmos da felicidade". 

Que belo horizonte via o meu pai. Eu perdi dois irmãos. Ele e minha mãe enterraram dois filhos. As dores sempre viveram na minha casa, mas ele nunca deixou de ser feliz. Eu tinha quinze anos quando, no velório do meu irmão, ele agradecia a Deus pelo tempo em que ele pôde ser pai de um filho tão especial. A felicidade mora, também, na tristeza. Ela se chama paz. Ela é compreendedora das finitudes da vida. E da eternidade. 

Da eternidade, sinto que meu pai sente o amor  que escrevo em palavras quando falo dele. E, se sinto, acredito. E sinto que, um dia, de um jeito que não sei, nos olharemos de novo e, na pureza do amor, agradeceremos por termos, no tal do mundo grande, sido pai e filho. 

Não se escolhe pai. É parte do que não depende de nós. Se dependesse, eu escolheria o meu bom José. Como escolho pensar nele e chorar e sorrir, porque são sentimentos que se completam. 

Feliz dia dos pais,  meu pai amado. Continue sorrindo para mim. E soprando mistério para que eu continue acreditando na bondade, sua mais valorosa herança.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
Ver notícias
São Paulo, SP
27°
Chuvas esparsas
Mín. 18° Máx. 29°
28° Sensação
7.2 km/h Vento
64% Umidade
100% (8.18mm) Chance chuva
05h43 Nascer do sol
18h06 Pôr do sol
Segunda
21° 17°
Terça
24° 17°
Quarta
25° 18°
Quinta
31° 18°
Sexta
30° 20°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,22 +0,10%
Euro
R$ 5,87 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 472,214,39 +0,99%
Ibovespa
192,114,55 pts 2.63%
Publicidade
Publicidade
Enquete
...
...
Publicidade