Sábado, 12 de Setembro de 2026
16°C 20°C
São Paulo, SP
Publicidade

“A delicadeza do amanhecer”

Entre o destino e as escolhas, duas irmãs atravessam o luto, o amor e o tempo em conversas marcadas pela memória e pela delicadeza da vida.

Redação
Por: Redação Fonte: Gabriel Chalita
07/09/2026 às 11h54 Atualizada em 07/09/2026 às 15h50
“A delicadeza do amanhecer”
Gabriel Chalita

Tia Aurélia arrastava o mundo naquelas chinelas. As pernas, gastas pela vida, acordavam cansadas. Na alma, estavam o não dito e a espera. Dizia que o filho escolheu o caminho errado. Tia Dulce dizia que não. Que tudo na vida está escrito. Que ninguém muda o destino. Tia Aurélia falava que gente não é planta que se olha a semente e se sabe no que vai dar. Gente é diferente. 

Tia Dulce sempre defendeu o sobrinho, que era um pouco seu filho, também. As duas eram irmãs. 

O filho de tia Aurélia não suportou o abandono da mulher e foi ter com a vida um encontro errado. Morreram todos. O fogo consumiu a casa em que estavam. E as cinzas daquele tempo nunca mais deixaram de estar. 

Tia Dulce nunca se casou. Dizia não ter jeito para as coisas complicadas. Cuidou dos pais, da irmã adoecida com a morte do filho e de si mesma, do seu jeito. O prazer estava nos bolos que fazia e no preparo da mesa que estendia para servir o café do entardecer do dia. O prazer estava, também, no conversar com a horta que tinha no fundo do quintal, como se fosse ouvida. Retirava o que não prestava e o que prestava colhia com carinho para o alimentar. 

Eram vizinhas nossas. Não eram propriamente minhas tias, mas era assim que eu as chamava. Que muita gente chamava. Tia Dulce dirigia automóvel. O que era uma raridade para as mulheres naquele tempo. 

Quando tia Aurélia ouviu do filho o inaceitável, fez de tudo, mas nada amaciava aquele dia de desencontros. Quando nos desencontramos, desperdiçamos a delicadeza do amanhecer. Quando nos desencontramos, prolongamos a noite. Quando nos desencontramos, a nossa humanidade corre riscos. 

Os dias de tia Aurélia nunca mudaram de assunto, desde o dia do fogo. Tia Dulce culpava o desamor; de fato, é insuportável amar e não ser amado. A irmã desmentia. A vida é costume. É só deixar amanhecer. Dizia e silenciava. E do seu silêncio escorria toda a solidão do mundo na espera de um filho que não vinha. 

As irmãs falavam de antes, de antes do fogo. Da cor errada das conversas. Da cor errada das conversas infinitas. Principalmente, das de dentro dele. 
 
A mãe dizia que, quando não se sente diminuído, não se é diminuído, que, quando não se sente desamado, não se é desamado.
Dulce não concordava e apelava ao destino. O que tem que ser é. 

Elas não brigavam, mas nunca concordavam. Não poucas vezes, tomei o café de tia Dulce e apreciei aquelas conversas. Frases nascidas na dor eram ditas. "O erro dele foi querer que ela fosse uma outra pessoa. Ela, com ele, já tinha desistido de existir. Ela até tentou o amar, mas não é assim que o amor acontece".
E por que não? E, então, tia Aurélia retrucou com mais autoridade:  "Você, por acaso, já amou alguém?".

A irmã gargalhou: "Muita gente, inclusive, você". A outra meneou a cabeça, falava de outro tipo de amor. Do que nos desacostuma do mundo de antes. Do que nos retira a sanidade. Do que nos faz escolher o fogo. O fogo nem sempre é morte. 

Tia Aurélia falou, então, do marido, morto há tanto. Que bom que não viu o filho fazendo as escolhas erradas. "Não é escolha", retruca a irmã. Falou de quando os seus olhos se encontraram. Eram verdes os olhos do marido, neles era possível ver uma floresta inteira. E um tempo de amor sem fim. Foi desejo até a doença  levar. 

A irmã volta ao tema do destino. Tia Aurélia falava da distância que nunca existiu entre eles, ao contrário do filho e da mulher que ele quis decidir. Ninguém decide o amor do outro.
 
Tia Aurélia me olhava com amor e dizia que eu aprendesse com a vida dos outros. Que eu escolhesse o caminho correto. Que a vida era uma aventura que merecia coragem e sabedoria. 

Sombreando a conversa, uma música de Bach lembrava que o que é bom permanece.
 
As irmãs morreram no intervalo de vinte e quatro dias, o mesmo número das horas de um dia. Morreram de morte morrida, depois de anos vivendo de discordâncias e de amor. Será que a morte delas já estava certa em algum livro que diz tudo, antes mesmo de nascermos? Ou será que é a liberdade que diz o tempo e o jeito como existimos?

Prefiro pedir ajuda a Sócrates e ao seu "só sei que nada sei". Prefiro prosseguir sentindo e lembrando e vivendo as escolhas que me cabem nesse tempo tão pequeno que passamos por aqui. 

Parece que foi ontem aquele dia, aqueles dias, aquele café, aqueles cafés. Aquele dia em que ouvi, mais uma vez, para prestar atenção à delicadeza do amanhecer.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
GABRIEL CHALITA
GABRIEL CHALITA
Professor, escritor, jurista e dramaturgo, Gabriel Chalita é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, construiu uma trajetória marcada pela educação, filosofia, literatura e cultura.

Nesta coluna, você acompanha seus artigos, reflexões e conteúdos exclusivos sobre ética, comportamento, educação, arte e os grandes temas da sociedade, sempre com a sensibilidade e a profundidade que fazem de Gabriel Chalita uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo.
Ver notícias
São Paulo, SP
18°
Tempo nublado
Mín. 16° Máx. 20°
18° Sensação
3.09 km/h Vento
91% Umidade
100% (11.04mm) Chance chuva
06h06 Nascer do sol
17h59 Pôr do sol
Domingo
18° 15°
Segunda
16° 15°
Terça
19° 14°
Quarta
18° 13°
Quinta
16° 12°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,13 +0,10%
Euro
R$ 5,94 +0,04%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 420,465,49 +0,02%
Ibovespa
187,206,89 pts -0.56%
Publicidade
Publicidade
Enquete
...
...
Publicidade